sábado, 10 de setembro de 2016

26 - FRAGMENTOS * O elogio de Lavoisier





Na vida nada se cria…


Na vida nada se perde…


Que esperas, transformação?







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Abril de 2004.

26 - FRAGMENTOS * Denúncia


Fragmentos

Denúncia






Num gesto de ignomínia consciente,


o todo foi tomado pela parte.


Mentir é indecente!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Abril de 2004.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Ansiedade




Ansiedade




Se eu tivesse a coragem bastante

de inventar-me e inventado ser eu,

cantaria a aventura exaltante

de me ter encontrado

no caminho sonhado

por que anseio e que é meu.



Se pudesse matar esta fome

que é de angústia e de barro amassado,

eu daria o meu nome

ancestral

que é de céu, que é de mar, que é de sal

a este tempo incumprido e parado.







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Novembro de 1994.
Alentejo, 9 de Setembro de 2016.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Proposição








A roda desta mentira,

que aliena e que destrói,

é verdade porque gira,

só porque gira e me dói.





Entontece-me a lonjura

tão fatal da translação

onde a luz e noite escura

são fases da rotação.





O Sol em chamas aquece,

a Lua morta reflecte,

sonhar não é proibido.





Servil, o servo obedece,

a superstição submete.

Ser em não-ser faz sentido?







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 24 de Novembro de 1994.
Alentejo, 8 de Setembro de 2016.


03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Ser poeta



(Do baú do esquecimento)

Ser poeta






Um verso, um simples verso de um poema

não nasce por vontade de escrevê-lo.

Um verso é sempre a angústia de um apelo

na redenção de nós em hora extrema.



Um verso canta harmónico no peito

ou dói e é um soluço na garganta.

Um verso é um alor que se levanta

e contra o tempo voa ou cai desfeito.



A ti que julgas belo ser poeta,

e esquece aqui juízos de valor,

repara: quando a planta dá a flor,

é sempre uma promessa que projecta.



Na vida sempre somos a procura

que além nos ares ganha ou perde altura!







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Julho de 1993.
Alentejo, 7 de Setembro de 2016.

15 - CANTO REBELADO * Catarse (3)




Não há porto de mim por achar.

Da distância que as velas venceram

só as quilhas na areia a varar

choram naus que no mar se perderam.



A distância de mim desvendada

é de terra e de mar, é de estrelas,

é de mãos estendidas no nada

sempre e sempre querendo colhê-las.



Neste chão, neste mar há os rastros

que doridos gravaram em mim

lucilares de angústias e de astros

de procelas e névoas de fim.



E porfio e suporto o cansaço

porque eu sou o que faço e não faço.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 5 de Setembro de 1996.
Alentejo, 7 de Setembro de 2016.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O perene murmúrio


 

Eu não sei se a palavra é bastante
para abrir os portais do horizonte.
Não sei mais se esta sede te cante,
se o feitiço da múrmura fonte.


Alguém diz: a nascente secou.
Ninguém ouve ou ninguém quer ouvir.
A notícia ninguém confirmou,
ninguém sabe o que está para vir.


O silêncio baloiça hesitante
no abandono dos lábios gretados.
Não há sede nem fonte que cante
os portais que persistem fechados.


Vem tão quente o verão! É de lume!
Há um auto profano a pairar
sobre as levas que em dor e azedume
resignadas recusam ousar.


E a palavra que não é bastante
cai aos pés dos portais do horizonte…
Que esta sede já velha te cante
o perene murmúrio da fonte!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 6 de Setembro de 2016.