quarta-feira, 7 de setembro de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Ser poeta



(Do baú do esquecimento)

Ser poeta






Um verso, um simples verso de um poema

não nasce por vontade de escrevê-lo.

Um verso é sempre a angústia de um apelo

na redenção de nós em hora extrema.



Um verso canta harmónico no peito

ou dói e é um soluço na garganta.

Um verso é um alor que se levanta

e contra o tempo voa ou cai desfeito.



A ti que julgas belo ser poeta,

e esquece aqui juízos de valor,

repara: quando a planta dá a flor,

é sempre uma promessa que projecta.



Na vida sempre somos a procura

que além nos ares ganha ou perde altura!







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Julho de 1993.
Alentejo, 7 de Setembro de 2016.

15 - CANTO REBELADO * Catarse (3)




Não há porto de mim por achar.

Da distância que as velas venceram

só as quilhas na areia a varar

choram naus que no mar se perderam.



A distância de mim desvendada

é de terra e de mar, é de estrelas,

é de mãos estendidas no nada

sempre e sempre querendo colhê-las.



Neste chão, neste mar há os rastros

que doridos gravaram em mim

lucilares de angústias e de astros

de procelas e névoas de fim.



E porfio e suporto o cansaço

porque eu sou o que faço e não faço.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 5 de Setembro de 1996.
Alentejo, 7 de Setembro de 2016.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O perene murmúrio


 

Eu não sei se a palavra é bastante
para abrir os portais do horizonte.
Não sei mais se esta sede te cante,
se o feitiço da múrmura fonte.


Alguém diz: a nascente secou.
Ninguém ouve ou ninguém quer ouvir.
A notícia ninguém confirmou,
ninguém sabe o que está para vir.


O silêncio baloiça hesitante
no abandono dos lábios gretados.
Não há sede nem fonte que cante
os portais que persistem fechados.


Vem tão quente o verão! É de lume!
Há um auto profano a pairar
sobre as levas que em dor e azedume
resignadas recusam ousar.


E a palavra que não é bastante
cai aos pés dos portais do horizonte…
Que esta sede já velha te cante
o perene murmúrio da fonte!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 6 de Setembro de 2016.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Cantar tem hora!





Não canto, não me apetece

nem há motivo p’ra tal.

Se a Primavera trouxesse

outra canção no bornal,

ai, aí, eu cantaria

o elogio da Poesia.



Versos raiados de cores

e de silvestres perfumes,

embriagados de amores

sem ciúmes nem queixumes.

Versos rubros de manhã

em doçuras de romã.



Todo o meu cantar tem hora:

é quando o sonho entretece

deslumbramentos de aurora

e a vida viva acontece.

Quem tem hora p’ra cantar

o tempo de mal andar?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 4 de Setembro de 2016.

sábado, 3 de setembro de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Meditação




A minha casa está de mal comigo

ou eu talvez estou de mal com ela.

Se falo não escuta quanto digo,

se calo, alheia, nunca me interpela.



E, juntos, eu nem sei qual mais se ignora.

Vivemos um viver sem importância.

O tempo que outros medem hora a hora

é para nós atemporal errância.



Fizemos do silêncio a nossa paz.

A podre paz do fim que se assumiu.

Que importa o que se faz ou não se faz?



Lá fora, a vida segue de jornada,

nas malhas do que toda a gente viu:

que andar só por andar vai dar em nada.







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 4 de Setembro de 2016.

15 - CANTO REBELADO * Da resistência








Nesta minha correria,

correndo atrás de quem foge,

que antemanhã antever?



Para mim, o tempo é hoje!

Sempre ser o mesmo dia…

angústia de o merecer.



Se recuso obediência

aos tempos que o tempo quer

é por sempre estar aqui!



Rebelde na resistência,

faça a força o que fizer…

não me perderá de ti!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Julho de 2002.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Do vazio (1)







As palavras são vazias

se lhes falta o conteúdo

do rigor e do sentido.



No frio das noites frias,

tanto sempre, tanto tudo

é o nada definido.



Toda a promessa presume

o resgate de uma senda

num momento de aflição.



Só quando há dor há queixume!

Só quando há erro há emenda!

Que noite de provação!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Julho de 2002.