sábado, 3 de setembro de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Meditação




A minha casa está de mal comigo

ou eu talvez estou de mal com ela.

Se falo não escuta quanto digo,

se calo, alheia, nunca me interpela.



E, juntos, eu nem sei qual mais se ignora.

Vivemos um viver sem importância.

O tempo que outros medem hora a hora

é para nós atemporal errância.



Fizemos do silêncio a nossa paz.

A podre paz do fim que se assumiu.

Que importa o que se faz ou não se faz?



Lá fora, a vida segue de jornada,

nas malhas do que toda a gente viu:

que andar só por andar vai dar em nada.







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 4 de Setembro de 2016.

15 - CANTO REBELADO * Da resistência








Nesta minha correria,

correndo atrás de quem foge,

que antemanhã antever?



Para mim, o tempo é hoje!

Sempre ser o mesmo dia…

angústia de o merecer.



Se recuso obediência

aos tempos que o tempo quer

é por sempre estar aqui!



Rebelde na resistência,

faça a força o que fizer…

não me perderá de ti!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Julho de 2002.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Do vazio (1)







As palavras são vazias

se lhes falta o conteúdo

do rigor e do sentido.



No frio das noites frias,

tanto sempre, tanto tudo

é o nada definido.



Toda a promessa presume

o resgate de uma senda

num momento de aflição.



Só quando há dor há queixume!

Só quando há erro há emenda!

Que noite de provação!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Julho de 2002.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

sábado, 20 de agosto de 2016

14 - LITERATURA INFANTIL * O passarinho (esboço 2)



Esboço de cantilena infantil (2)



O passarinho




Olha o passarinho,

bate as asas, vai!

Salta do seu ninho

sem medo e não cai!



Bate bem as asas,

voa sobre as casas

como um avião.

Depois, de repente,

vai poisar no chão

mesmo à minha frente.



Quero-lhe pegar,

mas ele não deixa.

Ri da minha queixa

e volta a voar.



E eu não vou chorar

nem fazer beicinho

porque passarinho

é para voar.



Não tem de ter medo,

não é um brinquedo,

é vida a pulsar:

é livre e feliz

no céu a voar

como o pai me diz.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Agosto de 2016.

14 - LITERATURA INFANTIL * A papinha (esboço 1)



Esboço de cantilena infantil (1)

A papinha



A mãe

já vem,

está na cozinha

fazendo a papinha

da sua filhinha.



Menina não chora,

a mãe não demora.



O pai entretém

a sua filhinha

enquanto não vem

a mãe

trazer a papinha.



Olha que já vem

a mãe

trazendo a papinha

p'ra sua filhinha!



Depois da papinha,

vai para a caminha.



O sono já vem.

Quer dormir também,

com a menininha,

na mesma caminha.



A menina vai

ao colo do pai,

vai para a caminha,

não pode ir sozinha.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 19.8.2016.

domingo, 14 de agosto de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Dia outonal






O tempo voa célere na pressa



de entretecer futuros no presente!

Que juvenil loucura de promessa

esgota o devaneio de repente?




As rugas olho e as cãs da decadência

e dói um sobressalto no meu peito.

Por quê tanta loucura na premência

se o devaneio agora está desfeito?




Que tempo louco assim não se extasia

no olor primaveril do encantamento?

Que pressa pelo fim da fantasia?




Nos braços hoje estou do sofrimento,

agonizante folha da utopia

que voa efémera ao sabor do vento.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Agosto de 2016.