domingo, 14 de agosto de 2016

33 - NÓS POESIA * Nos versos da canção / Ao som de um feitiço



Nos versos da canção
Tuphy

Silêncios de magia haurindo este momento
Irrompem da penumbra, altar do esquecimento.


Dedilho a minha lira, em noites de luar.
E os versos da canção, de mel em seu dulçor,
Entoo devagar, num tímido cantar
Que vai além de mim, buscando o teu candor…


Ebúrnea, a Lua ensaia um cálido sorriso.
E eu fico, enfeitiçado, ousando perceber
O que há mais para além do mágico impreciso
Que agita docemente o meu acontecer.


E um novo amanhecer a Leste se anuncia.
Florescem arrebois nos versos da canção…
Ai, que feitiço antigo agora me inebria
E em fogo queima o meu rendido coração!



Al-Ândalus, 1 de Setembro de 2011


*****


Ao som de um feitiço
Amine
أمير المؤمنين

Aos versos da canção, uma estrela acordou,
 E a  sombra que pairava em meu olhar voou...

Foi tua lira e teu cantar de acordar astros
Que fez o meu anseio de soprar solfejos
Ventar na noite cálida, sobre teus rastros,  
Caminho de delírio onde danço desejos. 

No raro alvor, magia bordando ventura,
Suave a voz que me encanta e enfeitiça o horizonte.
Além de ti, mais nada. Nem essa lonjura
Apaga os sons do canto que me fizeste fonte.

E, quando o sol alçar seus primeiros rubores,
Os véus que cobrem de bemóis meu corpo e sono,
Nas mãos da manhã, senhora furta-cores,
A lira guardarão em saudoso abandono.


Porto Alegre/RS

01.09.2011

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

11 - O MEU RIMANCEIRO * A maçada


(QUE VIVA O CORDEL!)







Dos donos de tudo

aos donos de nada,

o perfil estudo

da carnavalada



É tempo de Entrudo.

Viva a palhaçada!

Só quem é sisudo

não acha piada.



Por que estou eu mudo

de guarda fechada?

Por que estou de escudo

temendo a estocada?



Não brinco ao Entrudo?

Não acho piada?

Ser assim sisudo

é uma maçada.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 23 de Dezembro de 1996.
Alentejo, 12 de Agosto de 2015.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Por Portugal!




Nesta hora de angústia e tristeza, deixemos correr as lágrimas por esta nossa inditosa Pátria muito amada.

Que depois do pranto nos levantemos para apurar as nossas culpas.

As nossas culpas por termos chegado a mais este desespero.

As nossas culpas por termos permitido e por continuarmos a permitir uma vida de angústia e desespero.

As nossas culpas por tão mal amarmos e tão mal protegermos esta nossa Pátria.

Agora o fogo, criminoso ou não, que tudo devasta.

A par do fogo, outros males que tanto nos devastam...

Basta de «apagada e vil tristeza»!

Pelos nossos maiores, por nós, pela Pátria que vamos deixar de herança, saibamos , mais uma vez, dobrar o Cabo Náo!




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 10 de Agosto de 2016.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

15 - CANTO REBELADO * Naqueles tempos incertos...



Na esteira de Brecht...


Naqueles tempos incertos,

vieram as grandes fomes,

agudizando a paixão

de séculos de calvário.



As notícias que chegavam

traziam de longe o sangue

e os escombros amassados

de dor, metralha e desgraça.



Para cá dos Pirenéus,

a mordaça dos tiranos

impunha o silêncio e a paz

de grades e cemitérios.



A cobiça dos senhores

alardeava as vitórias

de assassinos e verdugos

de um império de mil anos.



E o medo gerava o medo…

E os passos da delação

silenciavam as bocas

uivantes dos deserdados.



Daqueles tempos incertos

há ainda os estertores…

Quem não viveu esses tempos

mantenha-se em guarda e evite

perversas ressurreições.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 2 de Setembro de 1996.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * No mito de Sagres



(Do baú do esquecimento)

No mito de Sagres




Do sonho menino,

a raiz

que me quis

um destino.



Fui além de mim,

fui até ao fim

p’ra saber quem era.

Nesta letargia

que me regenera,

o sonho porfia.



Que o sonho desponte

em novo horizonte

e chame por mim.!

Irei caravela

nas mãos da procela

sempre até ao fim!



E depois do fim,

que rasguem as vendas

do ignaro festim.

E vivam as lendas

do sonho carmim

rasgando outras sendas

mais além de mim.







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 20 de Junho de 1973.
Revisto em 3 de Agosto de 2016.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Génese


Tanto quanto sei, vem de muito longe o hábito de associar os versos também à ternura. Os versos abaixo foram escritos a pedido de um colega de profissão já então aposentado. Disse-me ter um pedido para me fazer e que eu não poderia recusar. Olhei-o surpreso e esperei: aí ele adiantou, tenho um netinha e muito lhe agradeço que escreva uns versos para ela. Não poderia recusar e escrevi-os. É uma memória linda que tenho deste avô que considerou uma grande prenda para a sua netinha uns versos escritos por mim. Aqui fica a partilha. Obrigado.



(Do baú do esquecimento)

Génese






Quando nasce uma criança,

o longe fica mais perto

e um caminho de esperança

rasga as dunas do deserto.



Um vagido acorda a Vida

do seu letargo profundo

e uma terra prometida

é do tamanho do mundo.



Quando uma criança chora,

seus olhos são duas fontes

e a sede que nos devora

naufraga em vales e montes.



Um sorriso terno e puro

é no tempo, é no espaço

a dívida de futuro

da força do nosso abraço.



Na criança que se gera,

há a promessa enlevada

de um sonho de primavera

ser a vida transformada.



Soprem ventos de mudança

e o Mundo seja um regaço

onde um sonho de criança

seja Tempo, seja Espaço.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, Outubro de 1986.

28 - CLAVE DE SUL * Consternação





Do coração do montado,

venho até à beira-mar.

O mar, no seu marulhar,

geme uns acordes de fado.



Lavado o rosto nas águas,

tomo-lhe o sabor a sal.

É de lágrimas e mágoas,

saudades de Portugal.



Olho em redor --- só vazio.

Olho o longe --- nada enxergo.

Onde foi que me perdi?



Marinheiro sem navio,

padrão que nunca mais ergo,

o que faço ainda aqui?





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Maio de 1993.