quarta-feira, 3 de agosto de 2016

15 - CANTO REBELADO * Naqueles tempos incertos...



Na esteira de Brecht...


Naqueles tempos incertos,

vieram as grandes fomes,

agudizando a paixão

de séculos de calvário.



As notícias que chegavam

traziam de longe o sangue

e os escombros amassados

de dor, metralha e desgraça.



Para cá dos Pirenéus,

a mordaça dos tiranos

impunha o silêncio e a paz

de grades e cemitérios.



A cobiça dos senhores

alardeava as vitórias

de assassinos e verdugos

de um império de mil anos.



E o medo gerava o medo…

E os passos da delação

silenciavam as bocas

uivantes dos deserdados.



Daqueles tempos incertos

há ainda os estertores…

Quem não viveu esses tempos

mantenha-se em guarda e evite

perversas ressurreições.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 2 de Setembro de 1996.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * No mito de Sagres



(Do baú do esquecimento)

No mito de Sagres




Do sonho menino,

a raiz

que me quis

um destino.



Fui além de mim,

fui até ao fim

p’ra saber quem era.

Nesta letargia

que me regenera,

o sonho porfia.



Que o sonho desponte

em novo horizonte

e chame por mim.!

Irei caravela

nas mãos da procela

sempre até ao fim!



E depois do fim,

que rasguem as vendas

do ignaro festim.

E vivam as lendas

do sonho carmim

rasgando outras sendas

mais além de mim.







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 20 de Junho de 1973.
Revisto em 3 de Agosto de 2016.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Génese


Tanto quanto sei, vem de muito longe o hábito de associar os versos também à ternura. Os versos abaixo foram escritos a pedido de um colega de profissão já então aposentado. Disse-me ter um pedido para me fazer e que eu não poderia recusar. Olhei-o surpreso e esperei: aí ele adiantou, tenho um netinha e muito lhe agradeço que escreva uns versos para ela. Não poderia recusar e escrevi-os. É uma memória linda que tenho deste avô que considerou uma grande prenda para a sua netinha uns versos escritos por mim. Aqui fica a partilha. Obrigado.



(Do baú do esquecimento)

Génese






Quando nasce uma criança,

o longe fica mais perto

e um caminho de esperança

rasga as dunas do deserto.



Um vagido acorda a Vida

do seu letargo profundo

e uma terra prometida

é do tamanho do mundo.



Quando uma criança chora,

seus olhos são duas fontes

e a sede que nos devora

naufraga em vales e montes.



Um sorriso terno e puro

é no tempo, é no espaço

a dívida de futuro

da força do nosso abraço.



Na criança que se gera,

há a promessa enlevada

de um sonho de primavera

ser a vida transformada.



Soprem ventos de mudança

e o Mundo seja um regaço

onde um sonho de criança

seja Tempo, seja Espaço.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, Outubro de 1986.

28 - CLAVE DE SUL * Consternação





Do coração do montado,

venho até à beira-mar.

O mar, no seu marulhar,

geme uns acordes de fado.



Lavado o rosto nas águas,

tomo-lhe o sabor a sal.

É de lágrimas e mágoas,

saudades de Portugal.



Olho em redor --- só vazio.

Olho o longe --- nada enxergo.

Onde foi que me perdi?



Marinheiro sem navio,

padrão que nunca mais ergo,

o que faço ainda aqui?





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Maio de 1993.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Memória de uma introdução perdida e que já não tem tempo para poder ser



Conheci a Poesia ouvindo ler, ainda muito menino, algumas lendas do livro maior do Povo Árabe. E de tal forma fiquei deslumbrado com tamanha beleza que, muito mais tarde, adquiri “As mil e uma noites”, uns quantos grossos volumes que mantenho carinhosamente na minha estante. Um pouco mais tarde, já um rapazinho da terceira classe da instrução primária elementar, senti-me desafiado a ensaiar os meus primeiros versos. Um desafio interior que veio não sei de onde e que não descobri ainda por que veio e para que veio. Aí começou a minha caminhada de cultor dos versos. E foi um alinhavar de versos e mais versos, sim, que versejar é uma coisa e, outra bem diferente, é adivinhar ou vislumbrar a Poesia. Na adolescência, conheci os Poetas da nossa Literatura. E, logo depois, alguns dos Poetas do Mundo. E data dessa mesma época a publicação de alguns versos em jornais. Recordo a “Democracia do Sul” e o “Notícias de Évora”, ambos da muito amada Cidade Museu, na década de cinquenta. No início da década de sessenta, entrei no jornal República pela mão do Poeta Alfredo Guisado, amigo e companheiro de Fernando Pessoa na aventura do Orfeu. A este Amigo querido fiquei devendo o que nunca poderei pagar, por muitos anos que eu viva. Em Dezembro de 1980, publiquei o meu primeiro livro de poemas: “arestas vivas”. Outros se lhe seguiram. Não sei se outros ainda se lhes seguirão. Cidadão afastado dos meios literários, os meus versos estão sujeitos a uma reduzida circulação. E assim se manterão, numa divulgação restrita. Só escrevo o que sinto --- são folhas de mim arrancadas pelos ventos da vida. Hoje, chegou a hora de oferecer à minha gente este ramalhete de versos. É uma dívida antiga. Só agora posso pagá-la. 
Não procuro lisonjas nem agradecimentos. Dou o que tenho, pelo prazer de dar-me. E agradeço a quem não recusar esta oferta. Sei que haverá quem considere este livrinho de valia menor. A esses direi que não soube fazer melhor. E, também, socorrendo-me da sabedoria popular, mais direi que quem dá aquilo que tem, a mais não é obrigado.

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Julho de 2005.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Lá vai o comboio, lá vai...




O pouca terra, pouca terra escuto.

Monótona e ruidosa ladainha

ampara as minhas lágrimas e o luto

que a meu lado caminha.



Meu luto que é por ti e que é por mim.

Sombria noite sob um sol de lume

que queima o meu queixume

nas aras dum herético festim.



No silêncio do cais,

espera a provação do nunca mais,

desnuda e sem bagagem.



Embarco… e o pouca terra, pouca terra

vai sussurrando enquanto me desterra…

Adeus, boa viagem!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 19 de Julho de 2016.