segunda-feira, 1 de agosto de 2016

28 - CLAVE DE SUL * Consternação





Do coração do montado,

venho até à beira-mar.

O mar, no seu marulhar,

geme uns acordes de fado.



Lavado o rosto nas águas,

tomo-lhe o sabor a sal.

É de lágrimas e mágoas,

saudades de Portugal.



Olho em redor --- só vazio.

Olho o longe --- nada enxergo.

Onde foi que me perdi?



Marinheiro sem navio,

padrão que nunca mais ergo,

o que faço ainda aqui?





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Maio de 1993.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Memória de uma introdução perdida e que já não tem tempo para poder ser



Conheci a Poesia ouvindo ler, ainda muito menino, algumas lendas do livro maior do Povo Árabe. E de tal forma fiquei deslumbrado com tamanha beleza que, muito mais tarde, adquiri “As mil e uma noites”, uns quantos grossos volumes que mantenho carinhosamente na minha estante. Um pouco mais tarde, já um rapazinho da terceira classe da instrução primária elementar, senti-me desafiado a ensaiar os meus primeiros versos. Um desafio interior que veio não sei de onde e que não descobri ainda por que veio e para que veio. Aí começou a minha caminhada de cultor dos versos. E foi um alinhavar de versos e mais versos, sim, que versejar é uma coisa e, outra bem diferente, é adivinhar ou vislumbrar a Poesia. Na adolescência, conheci os Poetas da nossa Literatura. E, logo depois, alguns dos Poetas do Mundo. E data dessa mesma época a publicação de alguns versos em jornais. Recordo a “Democracia do Sul” e o “Notícias de Évora”, ambos da muito amada Cidade Museu, na década de cinquenta. No início da década de sessenta, entrei no jornal República pela mão do Poeta Alfredo Guisado, amigo e companheiro de Fernando Pessoa na aventura do Orfeu. A este Amigo querido fiquei devendo o que nunca poderei pagar, por muitos anos que eu viva. Em Dezembro de 1980, publiquei o meu primeiro livro de poemas: “arestas vivas”. Outros se lhe seguiram. Não sei se outros ainda se lhes seguirão. Cidadão afastado dos meios literários, os meus versos estão sujeitos a uma reduzida circulação. E assim se manterão, numa divulgação restrita. Só escrevo o que sinto --- são folhas de mim arrancadas pelos ventos da vida. Hoje, chegou a hora de oferecer à minha gente este ramalhete de versos. É uma dívida antiga. Só agora posso pagá-la. 
Não procuro lisonjas nem agradecimentos. Dou o que tenho, pelo prazer de dar-me. E agradeço a quem não recusar esta oferta. Sei que haverá quem considere este livrinho de valia menor. A esses direi que não soube fazer melhor. E, também, socorrendo-me da sabedoria popular, mais direi que quem dá aquilo que tem, a mais não é obrigado.

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Julho de 2005.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Lá vai o comboio, lá vai...




O pouca terra, pouca terra escuto.

Monótona e ruidosa ladainha

ampara as minhas lágrimas e o luto

que a meu lado caminha.



Meu luto que é por ti e que é por mim.

Sombria noite sob um sol de lume

que queima o meu queixume

nas aras dum herético festim.



No silêncio do cais,

espera a provação do nunca mais,

desnuda e sem bagagem.



Embarco… e o pouca terra, pouca terra

vai sussurrando enquanto me desterra…

Adeus, boa viagem!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 19 de Julho de 2016.


terça-feira, 19 de julho de 2016

30 -...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * A dádiva de ti





Quando te deste,

trazias a pureza da manhã orvalhada de sangue

e o espanto da descoberta nos teus olhos verdes de mar.



Um sabor silvestre de medronho sorria nos teus lábios

e eu sôfrego bebi até me embriagar.



Meus olhos mergulhei nos teus olhos verdes de mar

e adormeci no pélago profundo.

Quando voltei à tona,

os teus olhos verdes de mar sorriam para mim a dádiva de ti.



Recebeste o meu último olhar

recebeste o meu primeiro olhar

foi assim enquanto a vida quis



No dia em que partiste,

não me deixaste o teu último olhar verde de mar.



Quando quis despedir-me de ti,

teus olhos verdes de mar já não poderiam ver-me nunca mais.

Tu já estavas longe, muito longe,

muito longe de mim, para sempre.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 19 de Julho de 2016


sábado, 16 de julho de 2016

10 - CANTO REVELADO * Catarse -2




Quando desço aos infernos da existência,

o Inferno existe.

Caim matando Abel. Caim que insiste,

numa insistência

verídica do mítico que existe.

Sem asas e sem corda e sem escada,

subir não pude nunca ao Paraíso.

Não falo de anjos nem da luz sagrada,

só falo do que sei, do que preciso,

de mais nada.

Apenas sou, aqui, no chão que piso,

o animal acossado que resiste.

No fim chegado, com ou sem aviso,

o quanto sou, o quanto em mim existe,

partícula será do chão que piso.

Nem alegre nem triste,

assumo inteiro a minha condição

de efémera ilusão

de ser além do meu amado chão que piso.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Julho de 2016.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

10 - CANTO REVELADO * A biografia possível

Viana do Alentejo, 1944 * Eu, com 7 anos de idade.






Eu não sei. Por que vim? Donde vim?

Ah, mas sei o que quero de mim!



Trago dentro de mim a verdade

da semente lançada no chão:

trigo loiro sofrendo a ansiedade

da farinha amassada --- do pão!



Sobre a terra que sou e onde vivo,

Mal ou Bem só por mim sobrevive.

Nada pode manter-me cativo:

a verdade da terra é ser livre!



Os meus braços embalam no vento 

estes sonhos que a terra esboroa…

e na força que sou e alimento,

sou o sonho que é terra e que voa!





José-Augusto de Carvalho
Julho de 2002
Alentejo * Portugal