terça-feira, 19 de julho de 2016

30 -...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * A dádiva de ti





Quando te deste,

trazias a pureza da manhã orvalhada de sangue

e o espanto da descoberta nos teus olhos verdes de mar.



Um sabor silvestre de medronho sorria nos teus lábios

e eu sôfrego bebi até me embriagar.



Meus olhos mergulhei nos teus olhos verdes de mar

e adormeci no pélago profundo.

Quando voltei à tona,

os teus olhos verdes de mar sorriam para mim a dádiva de ti.



Recebeste o meu último olhar

recebeste o meu primeiro olhar

foi assim enquanto a vida quis



No dia em que partiste,

não me deixaste o teu último olhar verde de mar.



Quando quis despedir-me de ti,

teus olhos verdes de mar já não poderiam ver-me nunca mais.

Tu já estavas longe, muito longe,

muito longe de mim, para sempre.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 19 de Julho de 2016


sábado, 16 de julho de 2016

10 - CANTO REVELADO * Catarse -2




Quando desço aos infernos da existência,

o Inferno existe.

Caim matando Abel. Caim que insiste,

numa insistência

verídica do mítico que existe.

Sem asas e sem corda e sem escada,

subir não pude nunca ao Paraíso.

Não falo de anjos nem da luz sagrada,

só falo do que sei, do que preciso,

de mais nada.

Apenas sou, aqui, no chão que piso,

o animal acossado que resiste.

No fim chegado, com ou sem aviso,

o quanto sou, o quanto em mim existe,

partícula será do chão que piso.

Nem alegre nem triste,

assumo inteiro a minha condição

de efémera ilusão

de ser além do meu amado chão que piso.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Julho de 2016.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

10 - CANTO REVELADO * A biografia possível

Viana do Alentejo, 1944 * Eu, com 7 anos de idade.






Eu não sei. Por que vim? Donde vim?

Ah, mas sei o que quero de mim!



Trago dentro de mim a verdade

da semente lançada no chão:

trigo loiro sofrendo a ansiedade

da farinha amassada --- do pão!



Sobre a terra que sou e onde vivo,

Mal ou Bem só por mim sobrevive.

Nada pode manter-me cativo:

a verdade da terra é ser livre!



Os meus braços embalam no vento 

estes sonhos que a terra esboroa…

e na força que sou e alimento,

sou o sonho que é terra e que voa!





José-Augusto de Carvalho
Julho de 2002
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 1 de julho de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * "Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão


Esta versão benévola do aforismo serve o meu intuito. Até porque me não permitiria usar aqui a contundente versão, porventura a original, deste aforismo.

Hoje, dia 1 de Julho de 2016, entrou em vigor, para a Restauração, o IVA de 13%. Assim se deu fim a uma medida do anterior governo de «direita» que tantas e tantas medidas tomou contra o Povo Português.

Sabemos que Portugal é um Estado de Direito desde 25 de Abril de 1976, data em que foi aprovada no Parlamento a Constituição da República Portuguesa, Lei Fundamental que, ao tempo, se dizia ser a mais progressista da Europa. Sabemos também que as revisões à mesma Constituição, todas da responsabilidade do Partido Socialista e dos partidos de «direita», foram um retrocesso. E quando há retrocesso na nossa Lei Fundamental, o Povo Português é sempre lesado nos seus anseios de justeza social.

Como dizia, hoje, dia 1 de Julho de 2016, entrou em vigor a determinação legal de aplicação do imposto (IVA) de 13% sobre a conta do meu almoço no restaurante. Tudo bem estaria, relativamente, é claro, mas fui surpreendido pela aplicação dos 23% em vigor até ontem. Não pela importância, que é de somenos, mas pelo atropelo à taxa legal de 13%, reclamei. Fui «esclarecido» assim do sucedido: o sistema ainda não está operacional. Deste esclarecimento se extrai a conclusão óbvia: a correcção do sistema sobrepõe-se à determinação legal. Se alguém entende, eu não entendo. Lei é Lei. E assim vamos neste Estado de Direito quanto baste, talvez na esteira da infeliz frase de um primeiro-ministro de finais de 1975: «É só fumaça, o povo é sereno.»

Ora porque sou persistente na defesa do que considero correcto, desloquei-me à Secção de Finanças e, colocada a questão, intuí mais do que entendi que o IVA a 13% será aplicado depois de vencidas as dificuldades do sistema.
Esperava eu que na Secção de Finanças me dissessem isto, que me parece meridiano: há dificuldades no sistema, mas as facturas serão analisadas oficialmente e os cidadãos agora lesados serão posteriormente ressarcidos. Sorrindo, regressei a casa. Afinal está “tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”!

Finalizando: pensando assim devagarinho, que “depressa e bem não faz ninguém”, atrevo-me a regressar ao primeiro-ministro de que falei: “É só fumaça, o povo é sereno”.

Apesar de tudo o que fica dito, eu continuo ao lado de Luís de Camões até que a morte me leve: “Esta é a ditosa Pátria minha amada!”
*
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Julho de 2016.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Os meus dias lindos





Há dias lindos, quando esqueço tudo e sou

apenas um olhar morrendo na lonjura.

E sinto-me o pintor que em êxtase fixou

os impossíveis tons da cósmica tontura.



E neles não sou eu nem outro alguém qualquer.

Apenas uma fresta aberta na muralha

sedenta a mendigar o pouco que puder

da pura luz que o céu por sobre a Terra espalha.



E quando o transe finda e a vida me fustiga,

eu sinto-me suspenso e baloiçando ao vento

até me diluir mortinho de fadiga.



Bendito o meu olhar que assim de mim se afasta!

Que simbolismo traz o meu encantamento

de me ausentar de mim, de me gritar já basta?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Junho de 2016.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

33 - NÓS POESIA * Tempo de espera / No tempo que espero




Tempo de espera


José-Augusto de Carvalho



Quando a lágrima vem e desliza

No meu rosto cavando o seu leito,

A saudade é de sal e de brisa

Nesta angústia a doer-me no peito.



Olho o barco do sonho desfeito

Que a memória ferida exorciza:

Que fantasma, a rasgar o meu peito,

Mais e mais a saudade enraíza.



Não há tempo de fel que me dome.

Neste tempo outro tempo se gera

P’ra que a vida o seu rumo retome.



Que este tempo de fel e de espera

Ganhe ao verde esperança o seu nome

E me torne outra vez primavera!



José-Augusto de Carvalho
12 de Setembro de 2011.
Viana * Évora * Portugal


***


No tempo que espero

Lizete Abrahão



Foi-se o tempo. Entre as fendas do muro

Correm lágrimas puras ao léu;

Do meu sonho acordei, mundo escuro,

Já morrera a manhã do meu céu...



A saudade cravou-se em meu peito

Como lenho na beira da cova;

Bebo o fel em que o vinho foi feito

E o amargo entre os dias me prova.



Quero um beijo com gosto de mar,

Uma flor-esperança, uma taça

E um poeta no cais a cantar...



Vou provar desse sal em teu rosto,

Dos olores beber e ser graça,

Para em verso sentir o teu gosto...




Lizete Abrahão
Porto Alegre/RS
12.09.2011 




segunda-feira, 20 de junho de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Por que perdemos sempre?





Nós somos tantos!
Eles são tão poucos!
Por que perdemos sempre?



Talvez nós não sejamos tantos como supomos.

Um antigo companheiro de jornada sempre qualificava de mal esclarecido quem lhe manifestava uma divergência de fundo. E sentenciava: «esclarecer, esclarecer sempre!» Certamente parafraseando o tão celebrado «aprender, aprender sempre!» que nós tínhamos por divisa nos tempos obscuros.

Desses mal esclarecidos tivemos notícia mais tarde, empoleirados nos palanques acomodados duma efemeridade sem amanhã.

É verdade que quando a barca adorna e os fados pressagiam procela e risco de naufrágio, sempre os timoratos procuram a garantia da terra firme. E assim porque não sabem nem querem saber que depois da tempestade vem a bonança.

São estes timoratos que se apropriam dos fastos e desgraças dos intrépidos que foram além da dor, no dizer de Fernando Pessoa; dos intrépidos que por mares nunca dantes navegados, no dizer de Luís de Camões, dobraram cabos, dominaram medos, rasgaram nevoeiros e descobriram amanheceres.

Por tudo isto, nós não somos tantos assim! 

Por tudo isto, eles não são tão poucos assim!

Por tudo isto, talvez fique claro por que nós perdemos sempre…



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Junho de 2016.