terça-feira, 14 de junho de 2016

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * A miragem



Duze e José-Augusto * Lisboa, 13 de Setembro e 1961.




Vieste noite a dentro despertar

feitiços debruados de luar



Vestia a fria luz de claridade

sonâmbulas as ruas da cidade



Na boca a primavera ainda fria

sabores flamejantes já trazia



Na noite do silêncio que me vela

apenas entrevi difusa tela



Talvez uma miragem sem sentido

de um tempo há tanto já de mim perdido



Fechei os olhos tristes da lembrança

e quis dormir um sono de criança



Ai, que no teu regaço adormecesse

e a vida para sempre me esquecesse





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Junho de 2016.

terça-feira, 7 de junho de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Vida ou barbárie, a opção



Sabemos todos nós que uma sociedade organizada obriga-se a cumprir e a fazer cumprir os valores éticos e os direitos consagrados nacional e internacionalmente.

Internamente, a nossa Lei Fundamental, a Constituição da República Portuguesa, situa-nos sem reservas; internacionalmente, a ONU- Organização das Nações Unidas e a UE-União Europeia convocam-nos a participar num contexto plural, o vulgarmente designado concerto das nações.

Situada a nossa posição aquém e além-fronteiras, é nossa intenção abordarmos os direitos dos animais, direitos estes que temos o dever de cumprir e fazer cumprir.

Falemos de aves, falemos de gatos, falemos de cães e também de outros menos significativos em número que convivem connosco, quer em nossas casas, quer nos espaços públicos.

Quanto estamos informados, só os cães estão sujeitos a licença e a um relativo controlo sanitário. E as entidades oficiais, que saibamos, não esclarecem o porquê desta limitação.

A saúde pública exige cuidados e medidas para protecção de toda a comunidade.

Também os animais vadios e abandonados não são coisas sem préstimo mas vidas exigindo atenção, cuidados, protecção.

Canis e gatis são indispensáveis para proteger estes animais e também aqueles que os seus protectores naturais não têm condições para ter em suas residências.

Os protectores naturais, expressão que prefiro ao inadequado dono/dona, desde que não possam alojar os seus amigos de estimação nas suas residências, certamente concordarão em ajudar, com uma mensalidade acordada, as entidades oficiais municipais responsáveis pelos canis e gatis supra mencionados.

Proteger a vida, amar a vida é um imperativo que nos distingue da barbárie.


Saudações cordiais.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Junho de 2016.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

06 - TUPHY VIVE! * Na tontura azul...






Trouxeste a luz no cintilar do nome.

Do chão que piso, deslumbrado olhei-te!

Verdade ou sonho, neste meu deleite

eu dou-me à luz para que a luz me tome.



Iluminado, que na luz eu arda

em lavaredas de letal delírio!

Que importa arder se for o meu martírio,

na Vida, a bênção que no fim me guarda?



Serei na Vida quanto a Vida quer,

até que um sopro, um sopro só me reste

da minha angústia de alma e sonho a Sul.



Depois do fim, se outro princípio houver,

serei, contigo, o lucilar celeste

no além da cósmica tontura azul!





José-Augusto de Carvalho
Al-Ândalus, 5 de Junho de 2016.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Escuta-me, meu amor!





Não tenho para dar-te opalas e rubis

nem horas de lazer em barcos de recreio.

Não tenho para ti palácios em Paris

nem te prometo em Punta Arenas veraneio.



Não tenho nem suor nem sangue nem troféus

de saques e festins de lucros e de esbulhos.

Não tenho noite adentro acesos lumaréus

afugentando a treva, as sombras e os barulhos.



Só tenho o campo aberto ao sol do meio-dia

e as noites de luar ornadas de marfim

ouvindo os rouxinóis cantar a melodia

que trouxe no princípio a voz dum querubim.



É pouco o que te dou --- a dádiva do dia

e a noite para amar nos braços da Poesia?





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 19 de Maio de 2016.



quarta-feira, 18 de maio de 2016

23 - NOSTAlGIA * Os caminheiros


Os caminheiros
ou a saudade imperecível do«duo maravilha»
*
José-Augusto de Carvalho 
Apolo (Dezembro de 1996 - 2 de Junho de 2010).

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Sonho de uma noite de Primavera






Deitada a meu lado,

menina-mulher,

cabelo doirado,

rosto acetinado

de alvo malmequer.



Olhos de veludo

querendo enxergar

em cálido ludo

o sonho que é tudo

na hora de se dar.



Um brando tremor

nos lábios romã,

buscando o dulçor

de orvalho e de cor

que veste a manhã.



Por fim, de mansinho,

o doce abandono

virá no carinho

velar o teu sono

em lençóis de linho,



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Maio de 2016.

sábado, 7 de maio de 2016

28 - CLAVE DE SUL * Os Tempos Velhos


Memórias

Os Tempos Velhos

O nosso muito amado Odiana


I

Uma mancha de arvoredo…

Treme o caminho de medo!



Um grito de raiva corta

o silêncio do montado.

Quem supunha a noite morta

neste sossego assombrado?



II

Numa janela da aldeia

tremeluz uma candeia…



Que sombra furtiva passa,

tragada pela escuridão?

Há um silêncio de ameaça

que perturba a solidão.




III

Andam malteses a monte

nas terras sem horizonte!

.

Soam secos estalidos…

navalhas de ponta e mola!

Há abafados ruídos

de passos que a lama atola…



IV

Cicatrizes purpurinas

de balas de carabina!



Homens de pele trigueira,

curtida pelo relento!

Aventuras de fronteira

e entregas sem juramento…



Nos beijos livres da noite,

sangram flores do laranjal!

Que amor na sombra se acoite,

na pureza natural…



V

O medo, o medo guardando

no arrojo do contrabando!



Malteses de olhos sombrios

assumindo a perdição

de ousios e desvarios

que lhes levedam o pão!



Uma sombra no arvoredo…

Treme o caminho de medo!



/

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Setembro de 1996
Alentejo, revisto em 7 de Maio de 2016