quarta-feira, 18 de maio de 2016

23 - NOSTAlGIA * Os caminheiros


Os caminheiros
ou a saudade imperecível do«duo maravilha»
*
José-Augusto de Carvalho 
Apolo (Dezembro de 1996 - 2 de Junho de 2010).

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Sonho de uma noite de Primavera






Deitada a meu lado,

menina-mulher,

cabelo doirado,

rosto acetinado

de alvo malmequer.



Olhos de veludo

querendo enxergar

em cálido ludo

o sonho que é tudo

na hora de se dar.



Um brando tremor

nos lábios romã,

buscando o dulçor

de orvalho e de cor

que veste a manhã.



Por fim, de mansinho,

o doce abandono

virá no carinho

velar o teu sono

em lençóis de linho,



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Maio de 2016.

sábado, 7 de maio de 2016

28 - CLAVE DE SUL * Os Tempos Velhos


Memórias

Os Tempos Velhos

O nosso muito amado Odiana


I

Uma mancha de arvoredo…

Treme o caminho de medo!



Um grito de raiva corta

o silêncio do montado.

Quem supunha a noite morta

neste sossego assombrado?



II

Numa janela da aldeia

tremeluz uma candeia…



Que sombra furtiva passa,

tragada pela escuridão?

Há um silêncio de ameaça

que perturba a solidão.




III

Andam malteses a monte

nas terras sem horizonte!

.

Soam secos estalidos…

navalhas de ponta e mola!

Há abafados ruídos

de passos que a lama atola…



IV

Cicatrizes purpurinas

de balas de carabina!



Homens de pele trigueira,

curtida pelo relento!

Aventuras de fronteira

e entregas sem juramento…



Nos beijos livres da noite,

sangram flores do laranjal!

Que amor na sombra se acoite,

na pureza natural…



V

O medo, o medo guardando

no arrojo do contrabando!



Malteses de olhos sombrios

assumindo a perdição

de ousios e desvarios

que lhes levedam o pão!



Uma sombra no arvoredo…

Treme o caminho de medo!



/

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Setembro de 1996
Alentejo, revisto em 7 de Maio de 2016

quarta-feira, 27 de abril de 2016

28 - CLAVE DE SUL * O Jogo dos Tempos






Todas as cartas na mesa.

Era o tempo, o tempo certo,

de jogar o jogo aberto

com verdade e sem surpresa.



Frente a frente, o destemor,

com louros de juventude,

e as cãs da decrepitude

a tresandar a bolor.



Era o confronto da vida:

a manhã que amanhecia

contra a noite que descia

toda de escuro vestida.




Era o sol que deslumbrava

a Primavera que vinha

contra o frio que sustinha

o passado que passava.




O jogo dos tempos era:

o que foi e se cumpriu;

o cravo que ao sol abriu

um sonho de Primavera.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Abril de 2016.

terça-feira, 26 de abril de 2016

05 - IN MEMORIAM * Não!



Em louvor de Olga Benario Prestes
Mártir do nazismo, em 1942, com 34 anos de idade




Eles não conseguiram matar-te!

Entre as gentes sem paz e sem pão,

ao alto ergues o rubro estandarte

do teu Não!



Milenar, o teu sangue é um rio

que transborda das margens-prisão

e se espraia no mar desafio

do teu Não!



Não nos campos e não na cidade

que palpitam no teu coração

e acreditam no grito-verdade

do teu Não!






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 26 de Abril de 2016.

*

Em Fevereiro de 1942, Olga foi executada junto com outras 200 prisioneiras na câmara de gás de Bernburg. A notícia da sua morte veio através de um bilhete escondido na bainha da saia de uma presa.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA! * Teus olhos de mar





O feitiço contigo levaste!


Eram verdes teus olhos de mar!...

Meu amor, por que só me deixaste,

se contigo, nos céus que buscaste,

tanto e tanto eu queria voar!



Naufraguei nos teus olhos de mar

e bendisse a fatal perdição!

Meu perder foi em ti encontrar

não o mito do cais por achar

mas a graça do teu coração.



Meu amor, que chorando bendigo,

por que não me levaste contigo?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Abril de 2016.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

28 - CLAVE DE SUL * O sonho lindo






Que lindo sonho foi de primavera!

Cantavam passarinhos nas ramagens.

Gritava a vida: estou à tua espera!

E tu perdido em transes e miragens!



Deixa essa fantasia e vem depressa,

que morro de saudade e de carinho!

Vem já! Que não atrases a promessa

de atapetar de flores o caminho!



Iremos, no rosado das auroras,

cantar em coro o “vamos lá saindo

por esses campo fora” desta vida!



Maduras, nos valados, as amoras

adoçam mais ainda o dia lindo

molhado de suor da nossa lida!




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Abril de 2016.