segunda-feira, 18 de abril de 2016

28 - CLAVE DE SUL * O sonho lindo






Que lindo sonho foi de primavera!

Cantavam passarinhos nas ramagens.

Gritava a vida: estou à tua espera!

E tu perdido em transes e miragens!



Deixa essa fantasia e vem depressa,

que morro de saudade e de carinho!

Vem já! Que não atrases a promessa

de atapetar de flores o caminho!



Iremos, no rosado das auroras,

cantar em coro o “vamos lá saindo

por esses campo fora” desta vida!



Maduras, nos valados, as amoras

adoçam mais ainda o dia lindo

molhado de suor da nossa lida!




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Abril de 2016.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Nocturno





Quem sepulta os tesouros perdidos

da nossa identidade?

Ouço os gritos, na noite evadidos,

quando a luz do luar,

mortinha de saudade,

vem beijar

os jardins da cidade.



Ouço as fontes, chorando

o silêncio que tudo calou.

Não há lágrimas nem níveas flores

na saudade de nós que ficou

recordando,

num rosário de dores,

quanto o fim sepultou.



Só o pó, que se evola nos ares,

diz que não, que é mentira este fim!

Que os cantares

perfumados de lírios

e alecrim

vão doendo os martírios

que nos querem sem voz,

sem a voz

a gemer que está dentro de nós.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Abril de 2016.



quarta-feira, 13 de abril de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Perplexidade




Para Maria José Maurício



Nas veias do teu corpo de mulher

circula vivo o sangue transtagano!

Rubor de cravo em livre peito humano,

brancura de silvestre malmequer!



O pátrio Sado rende-se a teus pés

e sonha para ti azul e mar!

O mar que vem, num terno sussurrar,

trazer-te a melodia das marés…



Celeste, como um véu, o puro azul

os teus cabelos cobre com ternura.

Das ancestrais lonjuras da tontura 

chama por ti a sedução do Sul.



E ficas sem saber qual mais requer

sonhar o teu destino de Mulher!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Abril de 2016.




domingo, 10 de abril de 2016

96 - TUPHY VIVE! * A certeza que trouxe...





De Berseba a certeza que trouxe

do princípio do tudo que herdei!

Minha sede de mim mitiguei

no seu poço de pura água doce.



Por mais longe de ti que eu esteja,

sempre perto estarei do alvoroço

do milagre que foi o teu poço,

minha herança de ser, assim seja!



Toda a terra é sagrada e materna,

do deserto à planura, do vale

à montanha mais alta que houver!



Se por ti meu amor se prosterna,

que no fim da jornada me embale

teu regaço de mãe e mulher…




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Abril de 2016.

domingo, 3 de abril de 2016

28 - CLAVE DE SUL * A sesta





Na praça dos marginais,

a preguiça dorme a sesta,

indiferente aos sinais

do farol que ainda resta.



Farol que ninguém apaga,

que vem desde os tempos velhos,

quando foi aberta a chaga

que antecede os evangelhos.



Sob o Sol, nada de novo!

Sempre a farsa se renova!

E em cada cena, este Povo

presta provas e reprova…



Sempre assim: quem mal estuda,

mal aprende, pouco alcança!

Este fadário não muda

sem vontade de mudança.



Cravos houve e primavera!

Houve um sonho de encantar!

Quem não age por que espera

senão do sonho acordar?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Abril de 2016.

sábado, 2 de abril de 2016

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Fim de tarde...


A tarde extingue-se. Exausto da caminhada, o Sol mergulha no Ocaso, envolto em arrebois de fogo, num ritual de fim. O manto de sombras prepara-se para agasalhar o sono que se aproxima. O ciclo cumpre-se. Um entre muitos dos ciclos que conhecemos. Amanhã, quando a manhã chegar «nos lábios da aurora», como poeticamente diz a “moda” do nosso amado Cante, outro ciclo se iniciará, alheio ao ciclo cumprido há poucas horas. É assim: o novo vem, o velho ficou nas sombras do que passou e não voltará jamais.
Dos passos dados nas caminhadas cumpridas, apenas um registo nas páginas da História do Tempo. Uma vida inteira registada em algumas linhas que irão dormir nas estantes do esquecimento de alguma biblioteca abandonada pelos poucos interessados ou curiosos de sonhos e pesadelos, de fastos e misérias dos ontens que são e sempre serão os pilares que sustentam os hojes da efemeridade.
Estranha esta realidade que designamos por hoje! Um lapso, um pestanejar momentâneo a separar os milénios do ontem dos milénios que se aprontam no amanhã que se futura!
No cair da noite que está prestes, sentei-me na berma do caminho. Sem meditações angustiadas nem elucubrações metafísicas, descanso. Sinto os pés doridos, sinto as pernas cansadas, sinto coração exausto de bater. Que paz neste descanso! Mal enxergo o ser e estar que me rodeia. Sombra e silêncio, nada mais. Nem a aragem me acaricia o rosto.
O que quis e não quis, o que pude e não pude, tudo jaz a meus pés num alforge de nada. Sobrou a inutilidade e uma nostalgia melancólica que breve, breve, adormecerá comigo.
Ah, mas há sempre um amanhã! Um amanhã que será, independentemente da minha vontade, independentemente de mim! Que seja, comigo ou sem mim, um amanhã. Um amanhã de sol e de esperança.
Comigo ou sem mim, o planeta continuará a girar nesta harmonia celeste que conhecemos! Até quando?
/
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Abril de 2016.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Duze ao frio


Serra da Estrela, início da década de 90
Serra da Estrela, início da década de 90

Cidade da Guarda, início da década de 90