domingo, 3 de abril de 2016

28 - CLAVE DE SUL * A sesta





Na praça dos marginais,

a preguiça dorme a sesta,

indiferente aos sinais

do farol que ainda resta.



Farol que ninguém apaga,

que vem desde os tempos velhos,

quando foi aberta a chaga

que antecede os evangelhos.



Sob o Sol, nada de novo!

Sempre a farsa se renova!

E em cada cena, este Povo

presta provas e reprova…



Sempre assim: quem mal estuda,

mal aprende, pouco alcança!

Este fadário não muda

sem vontade de mudança.



Cravos houve e primavera!

Houve um sonho de encantar!

Quem não age por que espera

senão do sonho acordar?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Abril de 2016.

sábado, 2 de abril de 2016

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Fim de tarde...


A tarde extingue-se. Exausto da caminhada, o Sol mergulha no Ocaso, envolto em arrebois de fogo, num ritual de fim. O manto de sombras prepara-se para agasalhar o sono que se aproxima. O ciclo cumpre-se. Um entre muitos dos ciclos que conhecemos. Amanhã, quando a manhã chegar «nos lábios da aurora», como poeticamente diz a “moda” do nosso amado Cante, outro ciclo se iniciará, alheio ao ciclo cumprido há poucas horas. É assim: o novo vem, o velho ficou nas sombras do que passou e não voltará jamais.
Dos passos dados nas caminhadas cumpridas, apenas um registo nas páginas da História do Tempo. Uma vida inteira registada em algumas linhas que irão dormir nas estantes do esquecimento de alguma biblioteca abandonada pelos poucos interessados ou curiosos de sonhos e pesadelos, de fastos e misérias dos ontens que são e sempre serão os pilares que sustentam os hojes da efemeridade.
Estranha esta realidade que designamos por hoje! Um lapso, um pestanejar momentâneo a separar os milénios do ontem dos milénios que se aprontam no amanhã que se futura!
No cair da noite que está prestes, sentei-me na berma do caminho. Sem meditações angustiadas nem elucubrações metafísicas, descanso. Sinto os pés doridos, sinto as pernas cansadas, sinto coração exausto de bater. Que paz neste descanso! Mal enxergo o ser e estar que me rodeia. Sombra e silêncio, nada mais. Nem a aragem me acaricia o rosto.
O que quis e não quis, o que pude e não pude, tudo jaz a meus pés num alforge de nada. Sobrou a inutilidade e uma nostalgia melancólica que breve, breve, adormecerá comigo.
Ah, mas há sempre um amanhã! Um amanhã que será, independentemente da minha vontade, independentemente de mim! Que seja, comigo ou sem mim, um amanhã. Um amanhã de sol e de esperança.
Comigo ou sem mim, o planeta continuará a girar nesta harmonia celeste que conhecemos! Até quando?
/
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Abril de 2016.

sexta-feira, 1 de abril de 2016