segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Minhas veias!




Só, nas margens do rio,

olho as águas e sinto-as correr.

Minhas veias de sal e de ousio,

quem vos pode deter

o navio?



Que desgraça

a tolher-me a coragem?

Tão distante da vida que passa,

já nem vejo a gaivota

em viagem

indicando-me a rota!



Minhas veias

a morrer neste cais!

Sem alor nem sinais,

só de nós falarão as areias

e o silêncio a carpir vendavais.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Janeiro de 2016.

sábado, 23 de janeiro de 2016

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Contigo, meu amor!





No refúgio do meu coração,

a minh’alma rendida em oração.



Um altar eu ergui no meu peito.

Um altar perfumado de incenso.

Eu e tu, num perfeito

ser-estar dos sidéreos espaços suspenso.



Não há tempo, não há duração.

Só o meu coração,

pelo pranto lavado,

tão de leve palpita

que parece parado

nesta entrega contrita.



Viverás para sempre na minha oração.

Morrerás quando eu for,

na carícia da minha outonal viração,

ter contigo, meu amor!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Janeiro de 2016.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O sonho impossível



Havia nele um sonho por nascer.

Um sonho que sofria e lhe doía.

Um rasto só de estrelas a correr

que cada amanhecer lhe desfazia.



Só quando as noites eram de luar

ou quando as nuvens todo o céu cobriam

o sonho consentia se ausentar.

E nele astros e céu também dormiam.



Ausente o sonho, o sono lhe tardava.

Da sua insónia a dúvida suspensa.

Ah, que obsessivo sonho o assaltava?



Naquela derradeira noite, o frio

doía-lhe na alma, frio intenso!,

e adormeceu nos braços do vazio.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 11 de Janeiro de 2016.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

10 - CANTO REVELADO * Da vida e da morte





O pouco que me coube nas partilhas,
um quase nada, foi o desafio
de descobrir-me em nem sei quantas trillhas.

Em todas vi o verde da esperança
nos braços ternos do estival rocio
que sempre p’la tardinha ensaia a dança.

Em todas vi o medo do negrume
das horas invernais de desvario
descarregar borrascas e azedume.

Em todas vi caducas as folhagens
deixarem o arvoredo à chuva e ao frio
buscando o chão das trágicas romagens.

Em todas vi, viçosos, os perfis,
em remoçados hinos de elogio,
de enleios e paixões primaveris.

Mas em nenhuma vi a negação
de Abel morrendo às mãos do seu irmão.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Janeiro de 2016.