terça-feira, 19 de janeiro de 2016

06 - TUPHY VIVE! * Hoje, eu sou de Bagdad!





Rio Tigre em Bagdad



Parou o Tempo na Mesopotâmia.

Que frias são as águas do Eufrates!

Se quero Amor e Paz, por que me bates,

idólatra das aras da infâmia?



O fumo negro enluta o berço antigo.

Quem quer abrir as Portas do Inferno?

Areias áureas onde me prosterno,

que Céu me dás agora por abrigo?



As iras e os festins dos vendilhões

irrompem numa orgia de ódio e sangue...

Do cálice de fel às legiões,

tudo sofreu meu corpo, há tanto exangue...



Do trágico madeiro ainda erguido

ao tempo que não mais será cumprido!...



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 4 de Abril de 2003/ 12 de Agosto de 2004
In «Da humana condição», Março de 2008.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * O adeus




Sem desgosto, chegou o momento

da partida.

Sopra, trémulo, um vento

de carícia contida.



Sobre as águas, um véu de noivar,

transparente, suspira e desfaz-se

abraçado ao desejo que nasce

numa entrega de amar.



Um incêndio anuncia o sol pôr.

Logo, logo, virá o luar,

na pureza celeste, encantar

para sempre o milagre de nós e do amor.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 14 de Janeiro de 2016.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO - A menina




Nos olhos trazes arrebois de amanhecer.

E nos cabelos o perfume ainda intenso

do leito cálido do teu adormecer.



Escondes tímida o rubor dos teus anseios

sob o garrido lenço

que te disfarça, bem cruzado, até os seios.



Na dança bela dos teus passos me desvendas

o dulçor das romãs

que se baloiçam na memória de idas lendas.



E os olhos cerro na saudade do que tive,

raiares de manhãs

de um tempo morto mas que em mim pra sempre vive!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 14 de Janeiro de 2016.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * A borboleta morta





O teu sorriso vem e minh’alma remoça.

Ai que outra primavera eu quero e em mim invento!

A tua boca vem e a minha boca adoça…

e eu quero a vida inteira só neste momento.



Quando te fores, vai, mas leva-me contigo

ou deixa-me morrer sem mágoa nem auxílio…

Que seja a tua boca o meu letal castigo,

nunca a saudade dela o fel do meu exílio.



Que a tua boca seja o meu último instante,

a última canção que escreva e que te cante

e o som da minha voz se evole no infinito.



Depois, ora depois, talvez algum poeta,

encontre numa flor a sedução inquieta

da borboleta morta aos pés de mais um mito.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 14 de Janeiro de 2016.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * A memória de nós






Tens razão, a saudade que mata

devagar

é o pranto a doer que desata

este nó que sufoca a garganta

e a chorar

canta.



Canta a cor do sol posto,

um incêndio inventando o rubor

do teu rosto

nos momentos de entrega e de amor.



Que momentos de ti para mim!

Que momentos de mim para ti!

Que princípio e que fim

nós quisemos e fomos aqui!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Janeiro de 2016.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Cantilena outonal





Nesta monda das ervas daninhas

mais viçoso floresce o jardim.

Acrobáticas, as andorinhas, 

só de negro vestidas num luto por mim!



Ah, mais flores, suaves olores,

girândola de cores

sobre mim derramando saudades e dores!



Ao romper da manhã, a tarefa começa!

São as pétalas mortas caídas no chão,

é a frágil raiz da roseira em promessa

que não pode ganhar a melhor direcção…



Ah, mais flores, suaves olores,

girândola de cores

sobre mim derramando saudades e dores!



Pressuroso lá vou ajudar

a roseira menina que intenta crescer

e dar rosas de encanto de amar 

no milagre de ser e viver.



Ah, mais flores, suaves olores,

girândola de cores

sobre mim derramando saudades e dores!







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 31 de Dezembro de 2015.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

31 - NA ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Sonho de romãs





Vinha o sol de Novembro sorrindo

no alvoroço de luz das manhãs.

Vinha terno afagar as romãs

que, a fingir-se caindo,

estouvadas se dão

num derriço de sim e de não…



Uma ténue neblina entretece

uma angústia doída.

Que promessa este sol apetece

num sortílego enleio de vida!



São de sangue os rubis.

Sangue vivo num êxtase doce

que me fita e me diz:

foi o sonho de ti que me trouxe…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Dezembro de 2015.