quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Cantilena outonal





Nesta monda das ervas daninhas

mais viçoso floresce o jardim.

Acrobáticas, as andorinhas, 

só de negro vestidas num luto por mim!



Ah, mais flores, suaves olores,

girândola de cores

sobre mim derramando saudades e dores!



Ao romper da manhã, a tarefa começa!

São as pétalas mortas caídas no chão,

é a frágil raiz da roseira em promessa

que não pode ganhar a melhor direcção…



Ah, mais flores, suaves olores,

girândola de cores

sobre mim derramando saudades e dores!



Pressuroso lá vou ajudar

a roseira menina que intenta crescer

e dar rosas de encanto de amar 

no milagre de ser e viver.



Ah, mais flores, suaves olores,

girândola de cores

sobre mim derramando saudades e dores!







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 31 de Dezembro de 2015.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

31 - NA ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Sonho de romãs





Vinha o sol de Novembro sorrindo

no alvoroço de luz das manhãs.

Vinha terno afagar as romãs

que, a fingir-se caindo,

estouvadas se dão

num derriço de sim e de não…



Uma ténue neblina entretece

uma angústia doída.

Que promessa este sol apetece

num sortílego enleio de vida!



São de sangue os rubis.

Sangue vivo num êxtase doce

que me fita e me diz:

foi o sonho de ti que me trouxe…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Dezembro de 2015.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Meio-Dia!





E quando o céu em chamas anuncia

o Meio-dia,

apenas o silêncio vela a tarde.

No altar do sacrifício, já mal arde

a cinza que restou

da vítima que o rito reclamou.



Agora,

apenas o descante das cigarras,

numa dolência triste de guitarras,

neste sem tempo chora.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Dezembro de 2005.

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * A roleta russa






Fumo cigarro após cigarro, noite adentro.

E nem com nicotina e fumo me concentro.



O pensamento voa e mágico volteia

em derredor da luz que a lâmpada irradia,

sequiosa borboleta

que louca se incendeia

na trágica roleta 

que anuncia

um fim que não receia.



Que estranha e dolorosa entrega em provação

esta da borboleta

ousando a libação

na vertigem do azar

da trágica roleta!

Continuo a fumar.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Dezembro de 2015.

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Hoje






Hoje,

não tenho no sapatinho

nem ternura nem carinho

e tanto e tanto os pedi!



Hoje,

nem Jesus me trouxe a prenda

esquecida em sua agenda

e tanto e tanto a pedi!



Hoje,

e dela sem um sinal,

sei que não tive natal

e tanto e tanto o pedi!




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Dezembro de 2015.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * A lanterna de Aladim





No princípio, o sinal da incerteza.

Era débil o caule que rompia.

Fascinado, intuí a beleza

no esplendor que o sinal prometia.



Sonhei pétalas rubras na flor

a sangrar no delírio de mim…

E chorei de emoção a supor

florescer outra vez o jardim.



Primavera no Outono --- magia

da lanterna do meu Aladim!

Que doçura que não alivia

no perder-me de ti e de mim!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Dezembro de 2015.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Miragem estival...


(...ou a nostalgia do perdido Al-Andaluz)





Ah, meu amor, que bem me sabe o teu dulçor,

idílico sabor silvestre de medronho!

Que mágico elixir dos deuses e do sonho

da tua boca eu sorvo em êxtases de amor!



Minh’alva a mergulhar no nosso amado Odiana,

desnuda e pura ousando abraços de ternura,

vem descansar depois nos braços da tontura

que estendo para ti na sombra transtagana.



Eu tenho para dar-te açorda de poejos

e peixe que pesquei enquanto tu dormias

e à sobremesa o ardor de beijos, muitos beijos…



Terás, ao fim da tarde, o incêndio do sol posto

e enleios de abandono afogueando o teu rosto

sonhados quando dada em mim adormecias.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 21 de Dezembro de 2015.