segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Embriaguez





Ai, amor, não digas não.

Não queiras quebrar o encanto

que levanto do meu chão

embriagado de espanto.



Dize-me apenas talvez.

Nessa angústia indefinida

darás à minha embriaguez

mais alguns dias de vida.



Ai, deixa o tempo voar

nas asas da embriaguez.

O cansaço há-de chegar

para matar-me de vez.



Eu irei reconfortado

no dulçor da embriaguez,

crendo que o sim esperado

daria fim ao talvez.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 21 de Dezembro de 2015.

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Que dia lindo!...




Para JRC


Que dia lindo brinca nos teus olhos

e terno me encandeia até cegar!

Que importa nunca mais ver com meus olhos

se foi p’ra ti o meu último olhar?



Que importa a rara flor mais perfumada

perante a primavera que cinzelo?

Depois de ti, não quero ver mais nada,

que tudo em ti resumes do que é belo!



Que venha neste enleio a perdição!

Que seja, num qualquer altar pagão,

meu peito em sangue e dor sacrificado!



Que venha o sacrifício que se apronte,

que tu sempre serás a minha fonte!

E em ti morrendo, irei dessedentado…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Dezembro de 2015.

domingo, 20 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * A gaivota





Os teus lábios de medronho

de fascínio e tentação

são de vida neste sonho

que mata o meu coração.



Que desgraçado conforto

morrer por ti sem te ter,

mas é maior desconforto

continuar a viver.



Nas águas do nosso Odiana

correm mistérios de nós,

desta condição humana

que sufoca a própria voz.



Nem os murmúrios sofridos

agitam as águas frias

nem o pulsar dos sentidos

dói mais nas marés vazias.



No rio manso que corre

para o mar que nos cumpriu

vai o desgosto que morre

e das margens ninguém viu!



Ninguém viu, ninguém chorou,

só no teu olhar tão triste

uma gaivota voou,

gaivota que só tu viste.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Dezembro de 2015.

sábado, 19 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Que Natal tão frio!








Que tentação assombra o meu caminho

e quer de fel o resto da jornada.

Vivi o meu quinhão de vida alada,

Hoje não me embriago nem com vinho.



Perdi o quanto tive de riqueza.

Riqueza pura, de alma e de fascínio.

Agora, triste e só, vivo o declínio

que mata a presa velha e sem defesa.



O forte mata o fraco, determina

a lei desde o princípio natural.

Nem neste tempo doce de natal

vejo, no sapatinho, a mão divina.



Prosaico vem o tempo, frio, frio,

e sempre tão ausente, tão vazio!...





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 19 de Dezembro de 2015.



31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Num terno enlevo





Talvez eu seja os versos que te escrevo

neste deslumbramento da Poesia

que vai além de nós, num terno enlevo,

e ganha a fantasia da magia




Talvez meus versos sejam o delírio

da sede que em teus lábios queima intensa

e quer-me a chama trémula dum círio

a arder no sacrifício que te incensa.




Enleio derradeiro da promessa

cumprida de alma pura de ternura

que em lágrimas da vida se despeça.




Que o teu regaço ampare o meu Outono

e eu leve o teu soluço de amargura

para os confins do nada e do abandono!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 19/12/2015

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Impaciência



Odiana * San Lúcar / Alcoutim




Falo-te, não me respondes,

e eu sem saber a razão!

Se no silêncio te escondes,

só me geras aflição.



E conjecturo porquês

e nenhum me satisfaz.

Para um ano falta um mês

que resposta não me dás.



Faças tu o que fizeres,

o rio do sofrimento

nunca será, se o preferes,

o rio do esquecimento.



Nem a barca de Caronte,

nem outra de um outro mito,

me cerrará o horizonte

que nós somos de infinito.



Das águas do nosso Odiana,

neste Dezembro tão frio,

partirei na caravana

que ruma ao teu desafio.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Dezembro de 2015.