sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Impaciência



Odiana * San Lúcar / Alcoutim




Falo-te, não me respondes,

e eu sem saber a razão!

Se no silêncio te escondes,

só me geras aflição.



E conjecturo porquês

e nenhum me satisfaz.

Para um ano falta um mês

que resposta não me dás.



Faças tu o que fizeres,

o rio do sofrimento

nunca será, se o preferes,

o rio do esquecimento.



Nem a barca de Caronte,

nem outra de um outro mito,

me cerrará o horizonte

que nós somos de infinito.



Das águas do nosso Odiana,

neste Dezembro tão frio,

partirei na caravana

que ruma ao teu desafio.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Dezembro de 2015.

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Em tempo de natal






Da barra, em Vila Real,

a maré vem rio acima.

E que frio traz o Natal,

o Natal que se aproxima!



Sem atraso no percurso,

cumpridor do calendário,

vem repetir o discurso

do messias operário.



Vem ainda pequenino,

e nas palhinhas deitado,

puro e nu como é destino

doutro qualquer deserdado.



Sobem as águas do Odiana,

cumprindo as leis naturais,

rumo à terra transtagana

de planuras e trigais.



Águas salgadas deveras,

fartas de peixes e de iodo!

Fim de angústias e de esperas

das mesas de um povo todo.



Como é mãe a natureza!

Corrige o inepto poder,

dando a todos com justeza

pra que todos possam ter.



E ninguém às águas tece

Hosanas e gratidão!

Ai, às vezes apetece

verberar a ingratidão.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Dezembro de 2015.




31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Corações trocados






Fomos saltar a fogueira

em noite de São João.

Entre tanta brincadeira,

soltou-se o teu coração.



Solto, saltou do teu peito.

Apanhei-o de aflição,

pra não ficar com defeito

depois de cair no chão.



Quando de volta o pediste,

enganei-te e dei-te o meu.

Com a troca tu sorriste

e hoje o que era meu é teu.



Com a troca não perdeste,

com a troca eu não perdi.

Nunca mais mo devolveste,

nunca mais to devolvi.



Quando a morte te levar,

sou eu morrendo por ti…

E em mim dirás a chorar:

Meu amor, já te perdi!






José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 16 de Dezembro de 2015.

31- NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Sonho de encantar






Ai, águas do nosso Odiana,

apelo de longe e mar,

que nunca ouseis me levar

meu sonho de porcelana!



Ai, meu sonho de ansiedade,

por que não és tu verdade!






Meu sonho é uma menina

mais fresca do que a aurora,

que canta, que ri, que chora,

que é divertida e traquina.



Ai de mim quando acordar

do meu sonho de encantar!





Ai, águas do nosso Odiana,

deixai-a livre brincar!

Meu sonho de porcelana

tem asas e quer voar!



Ai que sonho de encantar

contigo eu poder voar!





José-Augusto de Carvalho

Alentejo. 16 de Dezembro de 2015




terça-feira, 15 de dezembro de 2015

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Ao anoitecer






Bailavam nos teus lábios os sorrisos

de um mágico dulçor de primavera…

Surpreso, tolhe-me a algidez severa

e os meus sentidos sangram indecisos…



Que noites de invernia e solidão

maturam madrigais primaveris?

Que anelos de sortílego matiz

gerar anseiam nova floração?



Que sonhos impossíveis acalentas?

Que enternecida angústia te incendeia?

Que enlouquecidos êxtases sustentas?



Que sedução antiga de sereia?

Que perdição, agora? Que tormentas?

Bendito anoitecer de lua cheia!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 14 de Dezembro de 2015,

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

28 - CLAVE DE SUL * Eu nunca tive escola...




Eu nunca tive escola.

Aluno nunca fui, mas tive muitos mestres, diversos no saber…

Com eles aprendi o pouco que devia, o pouco por bastante.



O muito recusei --- e tanto prometia!...



E eu que não tenho medo senão de me esquecer

Não poderia aceitar negar-me

E ser mais um pagador de promessas…



Eu quero ver a luz do sol e a tremulina!

Sentir o corpo quente e a vista encandeada…



A fome em que morri e de que renasci,

Matá-la nos trigais

Ao lado dos pardais

Que pousam atrevidos nos espantalhos que não receiam mais.



Eu quero ver a luz que logo pela manhã quer tudo incendiar

E disputar ao sol a sede duma gota puríssima de orvalho.



Eu nunca tive escola,

Aluno nunca fui, mas tive muitos mestres…

E a mestre não cheguei porque só quis saber o pouco por bastante

E porque não quis aprender o que quero esquecer.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1996/14 de Dezembro de 2015.