sábado, 22 de agosto de 2015
13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Tormento
Como se fosse uma obsessão, assalta-me a dúvida: terá valido a pena tanta entrega? O Passado volta, agora, com insistência. Regresso à década de quarenta; regresso à década de cinquenta; regresso à década de sessenta. Foram tempos de desespero e de esperança no Futuro. Aquele Presente resistia e nele germinava o Futuro. Para todos, era inquestionável o fim do desespero que se vivia. E resistia-se; e morria-se para que os demais conhecessem o Futuro. Conheci muitos que me diziam: talvez eu não veja, mas tu verás! Um deles, um tipógrafo de assinalável cultura obtida nos muitos textos que compunha de escritores e poetas e ensaístas. Tuberculizara na prisão e a sua vida estava por um fio que teimou em resistir mais do que os médicos previam. Deixou-nos nos meados da década de sessenta, mas deixou também uma saudade imensa em quantos o conheceram, o estimaram, o admiraram.
Em Portugal, o Estado Novo implantara-se em 1933, tal como o Nacional-socialismo, na Alemanha. Em Julho de 1936, a tragédia começava na Espanha Republicana e o seu Governo Popular, legitimado em eleições livres, foi questionado por uma minoria rebelde, mas apoiada pela Itália fascista e pela Alemanha nazi; as Democracias europeias ficaram olhando como se nada fosse. Em Março de 1939, a Espanha Republicana sucumbia. O celebrado grito de Dolores Ibarruri, La Pasionaria, «No pasarán», era sufocado pelas forças alemãs e italianas. Vencera a fórmula desgraçadamente célebre: «Abaixo a inteligência! Viva a morte!» O grande poeta Federico Garcia Lorca era executado nos arredores da sua amada Granada, em Agosto de 1936. A última geração romântica, como ficou conhecida, acorreu a Espanha, em defesa da legitimidade democrática. Muitos e muitos das celebradas Brigadas Internacionais deram as suas vidas, derramaram o seu sangue pelo martirizado povo de Espanha. Acreditaram no Futuro, que não veio; acreditaram nas democracias europeias e americanas, mas em vão. O Futuro não veio e as Democracias tinham mais que fazer do que preocupar-se com o destino do povo de Espanha.
Quem ler «Por quem os sinos dobram», de Hemingway; «Homenagem à Catalunha», de Orwell; «Os grandes cemitérios sob a lua», de Bernanos; «A Esperança», de Malraux... e muitos outros textos de autores que viram claramente vista a tragédia, in loco, poderá perceber muito do que aconteceu.
Nasci durante a Guerra dita Civil de Espanha; cresci ouvindo falar nesses horrores e nos horrores piores ainda, estes a partir de 1 de Setembro de 1939, quando Hitler iniciava a carnificina que foi a II Grande Guerra (1939-1945).
Apesar de todas as tragédias, os povos tinham esperança e acreditavam no Futuro! Extraordinário! Por cá, foi o Tarrafal, foi a perseguição, foi a fome, foi a emigração, foi a Guerra Colonial... outro calvário! Um dia, os cravos floriram e todos sonhámos! Outro dia, os cravos murcharam em nome da democracia e todos perdemos. E hoje? Por onde anda a Esperança? E que Futuro germina nos nossos peitos? Olhemos em derredor e contemos pelos dedos os povos que se consideram felizes e os povos que têm esperança num Futuro de felicidade!
Este meu texto nada mais pretende do que partilhar a desesperança e apontar estes tempos em negação. Não me demito nem me rendo. Nunca o fiz e não será agora, quase aos oitenta anos, que irei corar de vergonha. E deixo este desejo que me foi transmitido: Muitos verão o fim da tragédia e o alvorecer da dignidade! Eu não terei essa felicidade, o meu tempo está a esgotar-se.
Cordiais saudações.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Agosto de 2015.
27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Fotos de Família
José-Augusto de Carvalho e Duze Pereira de Carvalho
A criança é o sobrinho Alberto Augusto, então com 2 anos de idade
A criança é o sobrinho Alberto Augusto, então com 2 anos de idade
Caneças, 1960.
domingo, 16 de agosto de 2015
27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Fotos de Família
Dois momentos de ternura:
Duze Pereira de Carvalho e uma menina que não consigo identificar neste momento-
30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Desgosto
Muerte de Ophelia (Hamlet)
Frias, frias, de agreste invernia
são as mãos da ternura
repousando a brancura
da pureza nesta hora tão fria.
Orvalhadas, as pétalas choram.
Choram pérolas belas e mansas
onde moram
as saudades das tranças
e a verdade que fomos um dia
e morreu quando tu me morrias...
...e contigo eu morri nesse dia.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Agosto de 2015.
sábado, 15 de agosto de 2015
28 - CLAVE DE SUL * O Cais
Para Maria Eugénio
Quando cheguei, o cais estava em festa.
O sol já deslumbrava ao meio-dia!
Nos campos calmos, uma paz honesta
que tudo envolve e mansa acaricia.
Esperavam por mim! Que terno abraço!
Que bom, na Vida, é sermos esperados!
Havia na corrente mais um laço!
Um laço entre outros laços apertados.
Cumpria-se a parábola dos vimes,
saber acumulado dos antigos...
Oh, Torre de Marfim, por mais que rimes,
rimar não sabes nuvens com castigos!...
Só este cais que tanto sofre e canta
cada manhã acorda e o sol levanta!
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Agosto de 2015.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Os olhos do dono...
Delegar competências é uma responsabilidade comum nos tempos actuais, comum e arriscada como muito bem se comprova no dia-a-dia.
Há afirmações do delegante distante da realidade, estas só possíveis porque o delegado «viu o cavalo» com «olhos» seguramente diferentes dos «olhos do dono do cavalo».
E estas situações nem sempre revelarão incúria do delegado, mas, apenas, uma percepção diversa ou relativizante da realidade.
Abordar esta questão é desagradável tal como será desagradável ler sobre ela. Efectivamente, constrange colocar alguém em xeque, talvez tanto como alguém que é colocado em xeque.
Pese embora, e muito, quanto antecede, é indubitável o imperativo que nos obriga a dizer que «o rei vai nu». Se o erro não for detectado, não mais será corrigido. E ninguém desejará viver no erro só porque constrange apontá-lo.
Hoje, é este registo que deixo à reflexão.
Saudações.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Agosto de 2015.
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