terça-feira, 16 de junho de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Apelo






Dá-me um sinal,

que seja apenas um suspiro enternecendo,

vago,

a noite da vigília...

Talvez o sono venha

e eu sonhe no enleio dos teus braços

que me queres levar...

e eu quero que me leves

para não despertar

e perder-te outra vez.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17.6.2015

segunda-feira, 15 de junho de 2015

28 - CLAVE DE SUL * Na amargura da espera



À memória de Casquinha e Caravela
assassinados no Escoural, 27/9/1979.




Quando a memória morre, a culpa é sempre nossa!

Quando o silêncio mata, a culpa é sempre nossa!

Ai, quantos mais terão ainda de cair

para que, neste chão, ao sol primaveril

que tudo em luz remoça,

irrompam a florir

rubros cravos de Abril?


*

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Junho de 2015.

domingo, 14 de junho de 2015

28 - CLAVE DE SUL * Interrogação





O Alentejo não tem sombra
senão a que vem do céu…





Os olhos semicerro à tremulina.

Que luz intensa! Cega a claridade!

Doída, a terra sonha-se e germina

a boa nova --- entranhas da verdade.



Atento, na vigília, o mundo antigo,

indaga até no vento que uiva rijo.

Que força tem um frágil grão de trigo

sonhando ser no seu esconderijo?



Amodorrado, o tempo das demoras

na pasmaceira espessa do abandono.

Nem o relógio marca já as horas.



Se há mantos de papoilas nos adis

sedentos dos teus lábios, por que o sono

te nega os êxtases primaveris?



*
Recuperando textos antigos
*
José-Augusto de Carvalho
13 de Junho de 2015.
Alentejo * Portugal




sexta-feira, 22 de maio de 2015

26 - FRAGMENTOS * As palavras

A magia do movimento


Ninguém é dono das palavras. As palavras constituem apenas um meio de comunicação, são um tipo de linguagem. Ora se as palavras são de toda gente, eu não estou cometendo um delito ou procedendo a uma apropriação indevida quando pronuncio a palavra amor, tal como Camões a pronunciou. É simplesmente um exemplo. Claro que há magia no entretecer das palavras. E essa magia varia de qualidade e de engenho. Ah, como eu gostaria de ter criado esta maravilha: “Ah! minha Dinamene! Assim deixaste / quem não deixara nunca de querer-te!»

Este meu deslumbramento pela magia do entretecer das palavras poderá remeter-me (ou remeter-nos?) para esta interrogação: será que qualquer situação, concreta ou abstracta, vale por si mesma ou, antes, vale mais ou menos, dependendo a valoração do modo como é verbalizada?


José-Augusto de Carvalho
22 de Maio de 2015.
Viana`´Evora*Portugal

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Fotos de Família


Viana do Alentejo * José-Augusto e Duze

sábado, 16 de maio de 2015

30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Confidência






Quando o fim se aproxima,

a confidência vem

e pungente sublima

a angústia tantos anos mantida refém:


Sem ti,

o que será de mim?

Sem mim,

o que será de ti?



*

José-Augusto de Carvalho
15 de Maio de 2015.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 9 de maio de 2015

11 - O MEU RIMANCEIRO * Romagem

(QUE VIVA O CORDEL!)








De tribo em tribo, vou, humilde peregrino.



E tudo em derredor são sombras e armadilhas.


Um bobo impertinente exibe o desatino,

a turba exulta e faz do reles maravilhas...



Medíocre insecto arenga, em sórdido arreganho.

Casaca a condizer, as asas coloridas.

Asneiras que lhe inveja o néscio em seu tamanho.

E aqui não há ninguém que venda insecticidas!...



Humilde sou e humilde eu quero assim manter-me.

Traído o seu intento, o verbo foi em vão.

Não é inteligente equiparar-me ao verme.

Humilde, sim, serei, mas sem humilhação.



Paguei o preço até ao último centavo.

Ingénuo, e em dor, do fel senti o amargo travo...







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Junho de 1997.