sexta-feira, 22 de maio de 2015

26 - FRAGMENTOS * As palavras

A magia do movimento


Ninguém é dono das palavras. As palavras constituem apenas um meio de comunicação, são um tipo de linguagem. Ora se as palavras são de toda gente, eu não estou cometendo um delito ou procedendo a uma apropriação indevida quando pronuncio a palavra amor, tal como Camões a pronunciou. É simplesmente um exemplo. Claro que há magia no entretecer das palavras. E essa magia varia de qualidade e de engenho. Ah, como eu gostaria de ter criado esta maravilha: “Ah! minha Dinamene! Assim deixaste / quem não deixara nunca de querer-te!»

Este meu deslumbramento pela magia do entretecer das palavras poderá remeter-me (ou remeter-nos?) para esta interrogação: será que qualquer situação, concreta ou abstracta, vale por si mesma ou, antes, vale mais ou menos, dependendo a valoração do modo como é verbalizada?


José-Augusto de Carvalho
22 de Maio de 2015.
Viana`´Evora*Portugal

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Fotos de Família


Viana do Alentejo * José-Augusto e Duze

sábado, 16 de maio de 2015

30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Confidência






Quando o fim se aproxima,

a confidência vem

e pungente sublima

a angústia tantos anos mantida refém:


Sem ti,

o que será de mim?

Sem mim,

o que será de ti?



*

José-Augusto de Carvalho
15 de Maio de 2015.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 9 de maio de 2015

11 - O MEU RIMANCEIRO * Romagem

(QUE VIVA O CORDEL!)








De tribo em tribo, vou, humilde peregrino.



E tudo em derredor são sombras e armadilhas.


Um bobo impertinente exibe o desatino,

a turba exulta e faz do reles maravilhas...



Medíocre insecto arenga, em sórdido arreganho.

Casaca a condizer, as asas coloridas.

Asneiras que lhe inveja o néscio em seu tamanho.

E aqui não há ninguém que venda insecticidas!...



Humilde sou e humilde eu quero assim manter-me.

Traído o seu intento, o verbo foi em vão.

Não é inteligente equiparar-me ao verme.

Humilde, sim, serei, mas sem humilhação.



Paguei o preço até ao último centavo.

Ingénuo, e em dor, do fel senti o amargo travo...







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Junho de 1997.

11 - O MEU RIMANCEIRO * Nihil sine causa


(QUE VIVA O CORDEL!)





A feira dos medíocres continua!

Senhores, quem dá mais? Quem arremata?

Sujeita à turba e à provação da rua,

a chusma de alimárias à arreata!



Os guizos, nos molins, são uma festa!

Em algazarra, corre o rapazio!

Morenos pelo sol que em fogo cresta,

ciganos e malteses de ar sombrio...



Barracas de andrajoso amor comprado,

um vómito de nojo purulento!

E, ao sol deste martírio, o descampado

inteiriçado ao frio do relento...



Lá longe, na cidade bem guardada,

a corte, em seus festins, não dá por nada...



*
(Nihil sine causa, nada existe sem uma causa, Cícero)
*
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 26 de Janeiro de 2000.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Hino à Poesia





Etérea, a sua voz afaga os meus sentidos.

Silêncios de emoção perfumam as carícias

das noites estivais sulcando, diluídos,

as flores dos jardins suspensos das delícias.



São olhos-de-água e sede as pérolas brotando,

multímodas na cor, murmúrios de oração...

Suspiram madrigais as pétalas arfando,

sortílego rubor de encanto e sedução...



Em manto verde e fofo, a erva se espreguiça,

do chão, olhando o céu num êxtase absoluto...

A rima beija o verso e toda se derriça

no manso baloiçar de apetitoso fruto...



Meus olhos semicerro e as lágrimas caindo

escrevem no meu rosto este poema lindo...




José-Augusto de Carvalho
10 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * As noites de mim







Nas noites de mim, adormeço cansaços

das terras, dos mares da minha ansiedade.

E, neste abandono, sossego os meus passos

na paz sossegada que cai e me invade.




O vento baloiça o meu berço de pinho

e traz-me as cantigas do rei Dom Dinis:

murmúrios e trovas, incerto o caminho

de dúvida e medos que ousado desfiz.




Fui lenho, fui vela, fui leme, fui rumo...

Fui rei, fui senhor, fui herói, fui injusto...

De tudo o que fui, só as cinzas e o fumo

se lembram de mim, quantas vezes a custo...




Mudaram os tempos e os seus paradigmas!

Com novas roupagens, os mesmos estigmas!






José-Augusto de Carvalho
11 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul