sábado, 16 de maio de 2015

30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Confidência






Quando o fim se aproxima,

a confidência vem

e pungente sublima

a angústia tantos anos mantida refém:


Sem ti,

o que será de mim?

Sem mim,

o que será de ti?



*

José-Augusto de Carvalho
15 de Maio de 2015.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 9 de maio de 2015

11 - O MEU RIMANCEIRO * Romagem

(QUE VIVA O CORDEL!)








De tribo em tribo, vou, humilde peregrino.



E tudo em derredor são sombras e armadilhas.


Um bobo impertinente exibe o desatino,

a turba exulta e faz do reles maravilhas...



Medíocre insecto arenga, em sórdido arreganho.

Casaca a condizer, as asas coloridas.

Asneiras que lhe inveja o néscio em seu tamanho.

E aqui não há ninguém que venda insecticidas!...



Humilde sou e humilde eu quero assim manter-me.

Traído o seu intento, o verbo foi em vão.

Não é inteligente equiparar-me ao verme.

Humilde, sim, serei, mas sem humilhação.



Paguei o preço até ao último centavo.

Ingénuo, e em dor, do fel senti o amargo travo...







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Junho de 1997.

11 - O MEU RIMANCEIRO * Nihil sine causa


(QUE VIVA O CORDEL!)





A feira dos medíocres continua!

Senhores, quem dá mais? Quem arremata?

Sujeita à turba e à provação da rua,

a chusma de alimárias à arreata!



Os guizos, nos molins, são uma festa!

Em algazarra, corre o rapazio!

Morenos pelo sol que em fogo cresta,

ciganos e malteses de ar sombrio...



Barracas de andrajoso amor comprado,

um vómito de nojo purulento!

E, ao sol deste martírio, o descampado

inteiriçado ao frio do relento...



Lá longe, na cidade bem guardada,

a corte, em seus festins, não dá por nada...



*
(Nihil sine causa, nada existe sem uma causa, Cícero)
*
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 26 de Janeiro de 2000.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Hino à Poesia





Etérea, a sua voz afaga os meus sentidos.

Silêncios de emoção perfumam as carícias

das noites estivais sulcando, diluídos,

as flores dos jardins suspensos das delícias.



São olhos-de-água e sede as pérolas brotando,

multímodas na cor, murmúrios de oração...

Suspiram madrigais as pétalas arfando,

sortílego rubor de encanto e sedução...



Em manto verde e fofo, a erva se espreguiça,

do chão, olhando o céu num êxtase absoluto...

A rima beija o verso e toda se derriça

no manso baloiçar de apetitoso fruto...



Meus olhos semicerro e as lágrimas caindo

escrevem no meu rosto este poema lindo...




José-Augusto de Carvalho
10 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * As noites de mim







Nas noites de mim, adormeço cansaços

das terras, dos mares da minha ansiedade.

E, neste abandono, sossego os meus passos

na paz sossegada que cai e me invade.




O vento baloiça o meu berço de pinho

e traz-me as cantigas do rei Dom Dinis:

murmúrios e trovas, incerto o caminho

de dúvida e medos que ousado desfiz.




Fui lenho, fui vela, fui leme, fui rumo...

Fui rei, fui senhor, fui herói, fui injusto...

De tudo o que fui, só as cinzas e o fumo

se lembram de mim, quantas vezes a custo...




Mudaram os tempos e os seus paradigmas!

Com novas roupagens, os mesmos estigmas!






José-Augusto de Carvalho
11 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul

26 - FRAGMENTOS * Agostinho Madeira


O saudoso Agostinho Madeira adorava ler. Aos amigos, dizia amiúde: «O livro é um amigo sempre disponível para falar connosco.» 
Dispensava um carinho singular ao pátrio idioma e era exigente no discurso. Quantas vezes, relia esta ou aquela passagem, ora deliciado ora meneando negativamente a cabeça e murmurando: «A coisa não saiu como deveria, que pena!» Também resmungava quando lia uma ou outra palavra em língua estrangeira. «Até parece que o português não tem as palavras adequadas», censurava. Só o velho Latim não lhe merecia reparos. «O Latim é a matriz», reconhecia.

Dispensava uma atenta e curiosa atenção aos livros de viagens, não pelas aventuras, mas pelas descrições de lugares e suas gentes. Era um viajante sem sair da sua terra. Ausentar-se era um sacrifício. Poucas vezes saía, mas quanto tinha de ser, lá ia. Tratava do indispensável e sempre ansioso por regressar. Dizia com frequência: «Na nossa terra, até as pedras da calçada nos conhecem».

Falava com desgosto dos emigrantes: «Que sina terem de ir ganhar o pão de cada dia em terra estranha! Não é justo!»

Até com os vizinhos espanhóis era sempre muito atencioso. E justificava: «Devem ser acarinhados, pois têm dificuldade em fazer-se entender e em entender-nos.» E concluía sabiamente: «É uma grande verdade que temos de ser uns para os outros.»

A sua cidade era Évora. Lá fizera a instrução primária, devido a exigências familiares; e, pelo mesmo motivo, frequentara o Liceu Camões, em Lisboa, mas a capital do país não o prendera. O torrão natal e Évora eram a sua paixão, por esta ordem.

Formado pelos ideais da res publica, era um democrata. Sempre relembrava: «Os homens são todos iguais em deveres e direitos. Ricos, remediados e pobres, todos nascem sem camisa.»

Quando era questionado sobre a desigualdade manifesta que sempre provoca a existência de ricos, remediados e pobres, meneava afirmativamente a cabeça e reconhecia: «Pois é, ainda não chegámos lá a esse patamar, mas chegaremos.» E logo acrescentava, com convicção: «O Homem ou tem por objectivo a perfeição humana ou é um caso perdido.»

*
José-Augusto de Carvalho
Escrito há anos, em data incerta.
Viana*Évora*Portugal