sexta-feira, 17 de abril de 2015

11 - O MEU RIMANCEIRO * O petulante


(QUE VIVA O CORDEL!)








Do pouco que aprendeu à martelada,

tudo esqueceu. Ficou-lhe a petulância, 

que rega no jardim da ignorância

se está de folga a bênção da chuvada.



Persegue, em vão, as graças requintadas

do estilo polvilhado de elegância.

Vive a vulgaridade da jactância,

ornada, aqui e ali, de calinadas.



A pobre língua infausto fado tem!

É pontapé que ferve, coice em barda!

Quem salva do desterro esta refém?



Surpreso e já irado o povo aguarda

e clama: por aí há ou não quem

lhe ponha nos costados uma albarda?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Setembro de 1958.
Revisto em Alentejo, 17 de Abril de 2015.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Interrogação





Dize-me, petiz,

em segredo ouvido,

porque te sorris

assim divertido.




E que rouxinol

tens tu na garganta

que as noites encanta

e inunda de sol?




Que certeza mora

nos teus olhos puros

de luz madrugada?




Ou tu és a aurora

rasgando futuros

na noite fechada?







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 29 de Maio de 1987.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Impossibilidade






Que sol de primavera (mal) ateia

o alor já tão cansado da raiz?

Que intenta ainda em ti e se prediz

aurora (na miragem) que clareia?



Que veleidade intenta o desvario?

Que simulacro intenta de conforto?

Só por milagre o corpo quase morto

aceitaria ousado o desafio.



Um tempo exacto existe para tudo.

Não queira vir, falaz, o fingimento

cantar loas de fogo à algidez.



O tempo que morreu, inerte e mudo,

não luta contra o pó do esquecimento

e sabe que não há segunda vez.





José-Augusto de Carvalho
14 de Abril de 2015.
Viana * Évora * Portugal