quinta-feira, 16 de abril de 2015

30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Impossibilidade






Que sol de primavera (mal) ateia

o alor já tão cansado da raiz?

Que intenta ainda em ti e se prediz

aurora (na miragem) que clareia?



Que veleidade intenta o desvario?

Que simulacro intenta de conforto?

Só por milagre o corpo quase morto

aceitaria ousado o desafio.



Um tempo exacto existe para tudo.

Não queira vir, falaz, o fingimento

cantar loas de fogo à algidez.



O tempo que morreu, inerte e mudo,

não luta contra o pó do esquecimento

e sabe que não há segunda vez.





José-Augusto de Carvalho
14 de Abril de 2015.
Viana * Évora * Portugal




30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Silêncio






Cansado, calo a lira, calo o canto.

O abraço do silêncio me resguarda.

Quando eu morrer, e a morte já me tarda,

não quero nem exéquias e nem pranto.



Apenas o silêncio que é devido

nas horas em que a vida desce ao nada.

Depois, ora, depois, virá o olvido,

que a vida continua a caminhada.



Cantar, há mais quem cante, neste mundo.

Mais um ou menos um, na cantoria,

que diferença faz a quem escuta?



Irei sondar o pélago profundo,

este fascínio a mar e maresia

que há séculos a minha pátria enluta.





José-Augusto de Carvalho
15 de Abril de 2015.
Viana*Évora*Portugal




sábado, 11 de abril de 2015

02- TEMPO DE SORTILÉGIO * A espera




Nesta espera,

um tempo que não passa

nem sequer desespera.

Que inacção

ameaça

a razão?



Que indiferença gera

a promessa traída?

Esta espera,

nos caminhos perdidos erguida,

desesperada espera...





José-Augusto de Carvalho
26 de Setembro de 2001.
Viana `Évora `Portugal

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O mergulho






Desperto do meu sonho,

mergulhei, sem apelo,

no frio pesadelo

onde hirto decomponho,

pedra a pedra, o caminho

que não se pôde erguer.

O milagre do vinho

é esta mágoa toda

negando a minha boda

de acontecer e ser?





José-Augusto de Carvalho
27 de Dezembro de 2001.
Viana * Évora * Portugal

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * A dúvida






Acontece viver...

Acontece...

Que havia antes de ser?

E que haverá após?

Esta dúvida que permanece

tão distante e tão dentro de nós!





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Setembro de 2001.

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Registo triste








Mil novecentos e noventa e nove,

vinte e quatro de Abril,

os tempos vesperais!

Num equilíbrio vago, o vão desfile

da massa que se move,

nada mais.



Nem medo nem receio,

só um desgosto frio

sobreveio.

E tu, banhada em pranto, no vazio.





José-Augusto de Carvalho
27 de Dezembro de 2001.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 8 de abril de 2015

21 - DO MAR E DE NÓS - II * A promessa jurada







Deste cais de partida diviso,

na distância, a promessa jurada.

Que ansiedade em minh'alma preciso

e me arrasta das trevas do nada?




Em redor, o abandono ferido...

Onde o sal, onde o iodo destas águas?

E a guitarra de cordas de mágoas

derramando insistente gemido!...




Venham medos, angústias, procelas!...

Venham céus de negrume, sem astros!...

Venha até o que nem imagino!...




Ai, se os ventos rasgarem as velas!...

Ai, se inúteis forem os mastros,

que se cumpra este mar --- meu destino!






José-Augusto de Carvalho
23 de Agosto de 2010.
Viana * Évora * Portugal