quarta-feira, 11 de março de 2015

10 - CANTO REVELADO * A minha lira







Hoje, por mais que tente, a minha lira

recusa-me um acorde de harmonia.

Apenas arfa, como quem suspira,

ou uiva, como aflita ventania.



Perplexo, me interrogo num porquê.

Olhando, em derredor, o desalinho.

Olhando, mas com olhos de quem vê,

descubro que me quer outro caminho.



Crianças órfãs medram pela ruas…

Nas mesas não há pão nem esperança...

As árvores sem ninhos tremem nuas…

Por entre a treva, a dor irada avança…



Bem-hajas, lira, a quem eu devo tanto!

Que seja, agora, a luta e não o canto!





José-Augusto de Carvalho
19 de Março de 2006.
Viana*Évora*Portugal



22 - O MEU CANCIONEIRO - 2 * Da tradição





Dezembro na tradição
do milagre de nascer!...
Anseio em superação
de um mal-estar e mal-ser
da Humanidade em questão.


Se os direitos que são meus
mos recusou o cambista,
porque também os quer seus,
afinal que tempo dista
do tempo dos fariseus?


Eu prefiro, por lição,
a páscoa porque é passagem
do tempo da negação
ao tempo-hoje da coragem
que diz não à sujeição.




José-Augusto de Carvalho
3 de Dezembro de 2006.
Viana * Évora * Portugal

Nota: Este poema não foi incluído, por lapso, na colectânea «O MEU CANCIONEIRO».
Ficará assim em espera de uma reedição da colectânea ou será incluído em uma outra a preparar.

terça-feira, 10 de março de 2015

22 - O MEU CANCIONEIRO - 2 * A inútil porfia







Se salvais as aparências

no recato do lugar,

claudicais nas evidências,

que indo além do mero estar,

são, no ser, vitais essências.




Se a ventura ao rosto vem,

a desgraça não se esconde.

É por isso que ninguém

há-de achar um como ou onde

para ser um outro alguém.




Tudo em vós vos denuncia

no recato do lugar.

É inútil a porfia.

Nem a noite tem luar

nem o verso poesia.





José-Augusto de Carvalho
30 de Julho de 2006.
Viana*Évora*Portugal




Nota: Sob o título acima, publicarei os textos que, por lapso, não foram incluídos, em 2009, na colectânea «O meu cancioneiro».



03 - ESTA LIRA DE MIM!... * No tempo chão...






Caíram as sombras frias 

sobre os espantos dos montes.

As fogueiras que acendias

nem ao sol de Agosto as contes!



Hoje, são outros os dias,

já sem espantos nem montes.

E a sede que não sacias

no morto encanto das fontes?



É outro o tempo de agora,

tempo chão, tempo fractura,

onde a vida se demora…



Na saudade que perdura,

o romper da bela aurora

orvalhada de ternura…





José-Augusto de Carvalho
19 de Junho de 2006.
Viana*Évora*Portugal

segunda-feira, 9 de março de 2015

03 - ESTA LIRA DE MIM!--- * Divagando






Nas margens do Vouga, a presença termal.

Respiro, no tempo, a memória amarela:

dos ontens distantes, um ténue sinal;

dos hojes, o rosto que a mágoa cinzela.



O vale verdeja. Humidade e suspiros.

A vaga esperança aos enfermos acena.

Veredas descobrem sossego e retiros

lavados de vento, a arfar cantilenas.



Perladas de mágoas, as águas do rio

espumam, noivando, incertezas de sal.

Angústias de ser… o fatal desafio

que tarda em cumprir-se país-Portugal.



Vaivém de marés… na distância adivinho

o pão levedado de alvura de linho.





José-Augusto de Carvalho
3 e 4 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Posição



  


Que distracção! Confesso o meu pecado

de ter nascido sem pedir licença.

Dos longes donde vim, maravilhado,

nascer não é pecado nem ofensa.



Dos longes donde vim, na graça imensa,

nascer é o milagre revelado.

No grito da promessa, a recompensa

do sonho feito verbo conjugado.



Pecado é não cumprir a lei da vida,

é dizer não ao sol que inventa o dia

e à noite debruada de luar.



Pecado é esta lei animicida,

no sonho aniquilando a melodia

e o meu direito vivo de cantar.





José-Augusto de Carvalho
9 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul 

05 - IN MEMORIAM * Brasil






Eu soube do Brasil na minha meninice,

aqui, no meu torrão de angústias e de esperas.

A minha tia-avó, no olor das primaveras,

buscara longe o sol que vivo lhe sorrisse…




Levou só orfandade e pranto por bagagem,

Que mais, madrasta, a pátria amada lhe negou.

Menina e luto em mar de medo e de coragem,

a pátria prometida um dia desposou.




E tão constante foi, menina, o seu amor,

que, pura, deu à terra amada quanto tinha.

Há quanto tempo foi? Seja o tempo que for!




Há sangue brasileiro ainda igual ao meu,

sofrendo uma saudade ainda igual à minha

de um tempo que no tempo há muito se perdeu







José-Augusto de Carvalho
Março de 2004
Viana*Évora*Portugal