terça-feira, 10 de março de 2015

22 - O MEU CANCIONEIRO - 2 * A inútil porfia







Se salvais as aparências

no recato do lugar,

claudicais nas evidências,

que indo além do mero estar,

são, no ser, vitais essências.




Se a ventura ao rosto vem,

a desgraça não se esconde.

É por isso que ninguém

há-de achar um como ou onde

para ser um outro alguém.




Tudo em vós vos denuncia

no recato do lugar.

É inútil a porfia.

Nem a noite tem luar

nem o verso poesia.





José-Augusto de Carvalho
30 de Julho de 2006.
Viana*Évora*Portugal




Nota: Sob o título acima, publicarei os textos que, por lapso, não foram incluídos, em 2009, na colectânea «O meu cancioneiro».



03 - ESTA LIRA DE MIM!... * No tempo chão...






Caíram as sombras frias 

sobre os espantos dos montes.

As fogueiras que acendias

nem ao sol de Agosto as contes!



Hoje, são outros os dias,

já sem espantos nem montes.

E a sede que não sacias

no morto encanto das fontes?



É outro o tempo de agora,

tempo chão, tempo fractura,

onde a vida se demora…



Na saudade que perdura,

o romper da bela aurora

orvalhada de ternura…





José-Augusto de Carvalho
19 de Junho de 2006.
Viana*Évora*Portugal

segunda-feira, 9 de março de 2015

03 - ESTA LIRA DE MIM!--- * Divagando






Nas margens do Vouga, a presença termal.

Respiro, no tempo, a memória amarela:

dos ontens distantes, um ténue sinal;

dos hojes, o rosto que a mágoa cinzela.



O vale verdeja. Humidade e suspiros.

A vaga esperança aos enfermos acena.

Veredas descobrem sossego e retiros

lavados de vento, a arfar cantilenas.



Perladas de mágoas, as águas do rio

espumam, noivando, incertezas de sal.

Angústias de ser… o fatal desafio

que tarda em cumprir-se país-Portugal.



Vaivém de marés… na distância adivinho

o pão levedado de alvura de linho.





José-Augusto de Carvalho
3 e 4 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Posição



  


Que distracção! Confesso o meu pecado

de ter nascido sem pedir licença.

Dos longes donde vim, maravilhado,

nascer não é pecado nem ofensa.



Dos longes donde vim, na graça imensa,

nascer é o milagre revelado.

No grito da promessa, a recompensa

do sonho feito verbo conjugado.



Pecado é não cumprir a lei da vida,

é dizer não ao sol que inventa o dia

e à noite debruada de luar.



Pecado é esta lei animicida,

no sonho aniquilando a melodia

e o meu direito vivo de cantar.





José-Augusto de Carvalho
9 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul 

05 - IN MEMORIAM * Brasil






Eu soube do Brasil na minha meninice,

aqui, no meu torrão de angústias e de esperas.

A minha tia-avó, no olor das primaveras,

buscara longe o sol que vivo lhe sorrisse…




Levou só orfandade e pranto por bagagem,

Que mais, madrasta, a pátria amada lhe negou.

Menina e luto em mar de medo e de coragem,

a pátria prometida um dia desposou.




E tão constante foi, menina, o seu amor,

que, pura, deu à terra amada quanto tinha.

Há quanto tempo foi? Seja o tempo que for!




Há sangue brasileiro ainda igual ao meu,

sofrendo uma saudade ainda igual à minha

de um tempo que no tempo há muito se perdeu







José-Augusto de Carvalho
Março de 2004
Viana*Évora*Portugal

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Ansiedade





Louvado seja Deus,

que fez a Terra e os Céus,

só vejo fariseus

e eu no banco dos réus!



Passaram dois mil anos

E há os meus grilhões

e há os mesmos tiranos

e os mesmos vendilhões!



O tempo está cumprido!

A mentira vigora!

Temendo que se exponha,



o agonizante ungido

ainda o fim implora

do tempo da vergonha!






José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 4 de Agosto de 1993.

21 - DO MAR E DE NÓS - II * Brasil





Não temas que eu caminhe! A bússola é segura.
E a minha mão domina o leme com mestria.
O vento, de feição, garante a travessia.
E o teu olhar lucila até na noite escura.

Há muito que este mar conhece a barca lusa…
E não me vai perder em trágico baixio.
Agora já não há sereia que seduza…
A barca irá chegar às águas do teu Rio!

O largo mar será e sempre muito estreito…
Distâncias a vencer, meu único destino.
No verbo navegar só eu sou o sujeito…

Sossega o teu temor! Eu chegarei ao fim!
Procela e medo e mar há muito que domino.
Há séculos que sou o delírio de mim!...



José-Augusto de Carvalho
Abril de 2002.
Viana*Évora*Portugal