segunda-feira, 9 de março de 2015

21 - DO MAR E DE NÓS - II * Brasil





Não temas que eu caminhe! A bússola é segura.
E a minha mão domina o leme com mestria.
O vento, de feição, garante a travessia.
E o teu olhar lucila até na noite escura.

Há muito que este mar conhece a barca lusa…
E não me vai perder em trágico baixio.
Agora já não há sereia que seduza…
A barca irá chegar às águas do teu Rio!

O largo mar será e sempre muito estreito…
Distâncias a vencer, meu único destino.
No verbo navegar só eu sou o sujeito…

Sossega o teu temor! Eu chegarei ao fim!
Procela e medo e mar há muito que domino.
Há séculos que sou o delírio de mim!...



José-Augusto de Carvalho
Abril de 2002.
Viana*Évora*Portugal





domingo, 8 de março de 2015

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Queda



Para o poeta José Ferreira Marques de Sousa



De barro e de água, a massa a modelar.

Artista, a mão ensaia conceber.

No céu, azul, o manto tutelar.

Humana, a vida vai acontecer.



Milagre foi a luz no meu olhar.

Desgraça o nunca ter sabido ver.

Do medo fiz a pedra de um altar…

E nem assim me soube merecer.



Deixei a vida em mim entretecer

a malha carmesim, em avatar

ferido só de nada e de não-ser.



E desde a queda, expulso do meu lar,

até ao fim do meu acontecer,

apóstata, persisto em me negar…








José-Augusto de Carvalho
25 de Janeiro de 2004.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 7 de março de 2015

30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * No milagre que te trouxe...






Vestida de papoilas, me sorrias...

Aurora em sangue, o grito da manhã!

Chegavas do Jardim. Nas mãos trazias, 

p'ra mim, intacta, a mítica maçã.




Olhei-te no milagre que te trouxe.

As dúvidas p'ra longe arremessei.

Maná ou perdição, fosse o que fosse,

abri a boca, em êxtase, e trinquei.




Senti um gosto azul, a firmamento,

lavado dum perfume de alfazema,

um néctar palestino de vindima. 




Em cantilena pura, a voz do vento.

louvava em versos de oiro o teu poema,

e flor só quis amor em vida e rima.




José-Augusto de Carvalho
12 de Março de 2005.
Viana*Évora*Portugal


02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Um entre tantos...






De esperas é meu tempo de esperança.

A sede sempre em busca de alvas fontes.

Os astros tremeluzem fulva dança.

Meus olhos são da cor dos horizontes.



Meus passos rasgam rotas no caminho.

Dos astros que me guiam sou devoto.

Ai, que me importa o vento em torvelinho

se sou, transfigurado, o longe ignoto?



O tempo por mim passa e me consome

e pelo tempo eu passo e quero ser,

efémero no ser, o movimento.



Um entre tantos, sou só mais um nome

enquanto quem me quer não me esquecer,

enquanto houver canções na voz do vento.





José-Augusto de Carvalho
7 de Fevereiro de 2005.
Viana*Évora*Portugal

quinta-feira, 5 de março de 2015

10 - CANTO REVELADO * Inquietação







Pequena é sempre a pátria que nos gera.

A nossa condição não tem fronteiras.

Se ser é recusar, quem degenera

e fica no não-ser das carpideiras?



De Norte a Sul, do Leste ao Ocidente,

o Mundo é um, de facto e de direito.

Em nós, a vida que palpita e sente

é água no caudal do mesmo leito.



Do mesmo tecto azul que nos abriga

ao mesmo chão que tudo nos garante,

nós temos por comum o quanto houver.



Se todos temos tudo por bastante,

que vento de discórdia alguns instiga

e o que é de todos só de uns poucos quer?







José-Augusto de Carvalho
6 de Junho de 2005.
Viana * Évora * Portugal

05 - IN MEMORIAM * Pablo Picasso







Dom Pablo era malaguenho,

bem do Sul da Andaluzia.

Se foi génio no desenho,

na pintura foi magia.



Deu sonho às suas Espanhas 

de gentes, lendas e cores...

Chorou, nas suas entranhas,

feridas, ódios e dores.



Em Guernica foi o grito

desmascarando os horrores

da barbárie sem perdão;



na pomba, as asas do mito

erguendo um altar de flores

à Paz, do berço ao caixão.




José-Augusto de Carvalho
14 de Janeiro de 2006.
Viana * Évora * Portugal

sábado, 28 de fevereiro de 2015

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Para ti, minha musa de ninguém!





Eu vou amar-te assim, perdido na lonjura,

ficando à tua espera,

sabendo que não vens, num sonho de loucura,

dar vida à minha derradeira primavera…



Serei o camponês vergado à condição

de sempre olhar o céu e nunca ter a graça

de ver-te projectada em luz sobre a desgraça

de não poder colher-te em astro do meu chão.



Que assombro de poeta em mim só faz alarde

de anseios de ilusão, sem asas de infinito?

O verbo feito carne, em transe, angústia e mito,

o tempo me negou. P’ra mim é sempre tarde!



E deslumbrado, aqui, eu sonho a minha estrela!

E sofro por não ter podido merecê-la.





José-Augusto de Carvalho
16 de Março de 2002.
Viana*Évora*Portugal