quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * O lenho envelhecido






O lenho envelhecido,

fendido e aqui e ali, está ferido.



A custo, mal resiste aos temporais.

E morre, nos teus olhos, de mansinho.

Mortiços, os sinais

dos faróis que lucilam sobre o mar

já não lhe sinalizam os caminhos

nem porto por achar.

O lenho envelhecido,

fendido e aqui e ali, está ferido.

.



Açoita a ventania!

Quebrado o leme, rotos os velames,

falazes são tentames,

falaz é a porfia.



Num turbilhão, as vagas cavalgando

irrompem num tropel…

Sem ter onde nem como nem quando

um cais para aportar,

afunda-se no mar de sal e fel.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Janeiro de 2015.


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

28 - CLAVE DE SUL * O São Martinho


O Cante Alentejano * Escultura de Fernando Fonseca




Bem alto, ainda gritam as tonturas

no sol ardendo Outonos…



Pesados e ébrios, os tonéis.

São Martinho lambendo os lábios,

na longínqua delícia do mosto,

caminha claudicando a sede

que grita: vinho novo! Vinho novo!



Na venda, o vinho novo

provoca a cantoria:

«Rosa branca desmaiada

onde deixaste o cheiro…»

As vozes ganham a polifonia

de um rito secular

de comunhão profana.

E eu fico ouvindo a rosa desmaiada

até sentir o chão

florindo primaveras.

E uma doçura imensa me enternece

o coração contrito.

Tartamudeio só um obrigado

à Vida e vou andando

por estas ruas tristes e desertas…


*

José-Augusto de Carvalho
20 de Janeiro de 2015.
Viana*Évora*Portugal

20 - VENCENDO BARREIRAS * Notícias




Tentando vencer barreiras, aqui deixo o endereço de um vídeo de alguns trabalhos. Outros vídeos se seguirão.


http://youtu.be/543dIvCcfBw

O recurso à Internet será um dos possíveis para ultrapassar o silêncio que se abate sobre os meus trabalhos.

Cordiais saudações.

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Janeiro de 2015.

15 - CANTO REBELADO * Resistir





Quem constrói castelos de areia,

ficará sem eles na próxima maré-cheia…


Por que se ensina tão pouco e tão mal?

Por que se formam autómatos e não homens?

É o rebanho obedecendo ao pastor!

O pastor é que manda!

O pastor é que sabe tudo!…

Saber é Poder; não saber é ser servo.



Ninguém poderá viver a minha vida!

Ninguém poderá pensar por mim!

Há coisas intransmissíveis:

a vida e o pensamento, 

as emoções e os desgostos, 

os sonhos colhendo estrelas…



A inércia é má conselheira.

Desistir é entregar o poder.

Desistir é uma forma de rendição.

Não me rendo.

Honro a vida que me foi dada tentando ser digno dela.


*

José-Augusto de Carvalho
19 de Janeiro de 2015.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 18 de janeiro de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * O nada






Acabou tudo


Um rio de tristeza

desliza vagamente para o mar



Os raios derradeiros do sol-pôr

matizam desmaiados

as águas que deslizam vagamente.



A pouco e pouco as sombras

vestem de luto as águas que deslizam

assim tão vagamente para o mar

e um frio de invernia

as lágrimas me gela

de desgosto e de nada



Do nada que ficou



*

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Janeiro de 2015.

--

José-Augusto de Carvalho

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Duze Carvalho





Orvalhada de lágrimas,

a flor tombou da haste

no entardecer da Vida



A terra-mãe abriu

os braços da ternura

e sepultou a flor

nas entranhas doridas



Indiferente, o mundo

vai girando o fadário planetário,

enquanto houver o sempre!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Janeiro de 2015.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

10 - CANTO REVELADO * Nostalgia de Abril






Mais um Inverno frio nos deixava…

Mais uma Primavera prometia…

E sempre uma esperança pontilhava

de estrelas este céu que se fechava

ao rútilo esplendor dum claro dia!



E sempre esta esperança que morria

em cada frustração que nos matava!

E sempre o desespero arremetia

na força renovada que nos dava

a Fénix que das cinzas renascia!



Ai, tanto se morria e renascia!

E sempre esta esperança acalentava.

Que fértil terra de húmus e porfia

a força dava à força que faltava

nas horas em que a vida mais doía?



De sangue e desespero se amassava

o pão que noite adentro se comia!

De sol a sol, o corpo tudo dava

a troco duma jorna que minguava

enquanto o desespero mais crescia.



Ah, mas, na sombra, a noite murmurava

enleios, numa terna melodia!

E antes de adormecer, já madrugava

nos versos da canção que prometia

livre e fraterna a terra que chegava!



Chegava a Liberdade que cantava

lusíada, em feliz polifonia,

o fim do pesadelo que matava

no dia todo em luz que despertava

a vida que chorava de alegria!



O pátrio povo em armas devolvia

o berço que das trevas libertava

ao povo que sem armas acudia.

E um povo todo irmão se estremecia

no imenso e terno abraço que se dava.



Navegar é preciso, prometia,

agora que o viver se precisava!

Nos braços embalada, a pátria ouvia!

E quanto mais ouvia mais se dava

ao sonho que se ousava e florescia.





José-Augusto de Carvalho
27 de Outubro de 2014.
Viana*Évora*Portugal