sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

15 - CANTO REBELADO * Assim seja!




Que o tempo de hoje se situe e seja o desafio!

Que a folha desprendida ensaie o rodopio!



Que as dores das origens

se evadam nas manhãs

e sangrem as vertigens

nos outonais delíquios das romãs!



Que após o longo tempo em gestação,

das húmidas entranhas brotem lanças!

Lanças subindo, raio acima, a tentação

da luz que vem do céu no olhar duma criança.



Que venha, num sinal tão manso de evangelho,

anunciar o pão,

o pão da fome, o pão do menino e do velho

que, ali no largo, jogam ao pião!





José-Augusto de Carvalho
13 de Novembro de 2014.
Viana*Évora*Portugal









13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O objectivo principal


O objectivo principal será sempre tentar saber: como se chegou aqui; como se está aqui; como sair daqui.

Como se chegou aqui? Que causas terão determinado uma caminhada que não conseguiu alcançar os objectivos propostos à partida?

Como se está aqui? Em que condições estamos aqui, agora?

Como sair daqui? Que condições há para ultrapassar a situação e de que meios dispomos para o conseguir?

Ponderando as respostas a estas três interrogações, será possível uma avaliação da situação e perspectivar um modo de agir racional.

Voluntarismos e desenrascanços nunca foram um modo sustentado de agir. Ou estoutra, também sua aparentada: «quem não tem cão, caça com gato».


Esta reflexão decorre do muito que vou vendo e só nos tem conduzido a desaires.

Se contribuí com esta reflexão, fico satisfeito por ter sido útil; se não consegui, que siga a dança!

Até sempre!


José-Augusto de Carvalho
26 de Novembro de 2014.
Alentejo, Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O desaforo


Quem tem olhos, que veja!

Quem tem ouvidos, que ouça!



Exortações antigas que conheço desde que me aventurei na leitura dos textos bíblicos. Excelentes exortações, concedo, até porque muito convém sabermos o que se passa. É verdade, quem anda distraído neste mundo de cristo sem cristo, está perdido se não estiver atento!

Se tudo isto convém, não é menos verdade que vamos ouvindo, aqui e ali, confidências que nos desgostam e melhor seria não as termos ouvido…

Ou vamos vendo, também aqui e ali, o que teríamos desejado não ver… porque «olhos que não vêem, coração que não sente»… (Ah, este rifão cruel, tão cruelmente verdadeiro, quantas vezes!...)

Nesta altura da vida, vida já longa, decidi afastar-me, na esperança de me poupar a desgostos. Mas sempre alguma situação se me depara abruptamente; sempre alguma inconfidência insolitamente me chega… E fico triste, mais triste ainda, por mim e pelos outros. Pelos outros que esperam e desesperam; pelos outros que confiam até ao desespero da frustração!

O desaforo implantou-se.

Como já tenho obrigação de saber, «um homem sozinho não vale nada». E porque estou sozinho, logo nada valendo, suporto o desaforo. Suporto porque não tenho alternativa.

Tempos virão, porque a decadência não é o fim da História, mas apenas a desagregação duma situação, dum tempo que morre, dum tempo que morre sem deixar saudades… Tempos virão e com eles quem nos julgará e condenará.

E aqui será obrigatório citar Brecht? Se sim, oxalá que os vindouros, quando nos julgarem, nunca esqueçam o tempo escuro a que escaparam...




José-Augusto de Carvalho
27 de Novembro de 2014.
Alentejo*Portugal

terça-feira, 7 de outubro de 2014

07 - CALEIDOSCÓPIO * Desafio



Recuso e no meu não florescem as manhãs.

Ao sol fraco e tardio,

abertas, as romãs

sangram num desafio.


No tempo que me coube,

quis ser também assim, fugaz, a viva essência.

Se não pude ou não soube,

que neste fim me reste o fel da penitência.



J
osé-Augusto de Carvalho
Agosto de 2001./Setembro de 2010.
Viana*Évora*Portugal

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

07 - CALEIDOSCÓPIO * Da Vida




O tempo que nos limita

só é limitada senda

quando a vontade finita

não tem auréolas de lenda...





José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal

domingo, 5 de outubro de 2014

07 - CALEIDOSCÓPIO * Reflexão


Ah, as coisas que eu não sei!
E, um dia, mais saberei?

Ah, mas em meu derredor,
o saber é tanto, tanto,
dum saber maior,
que, siderado, me espanto
por só saber o que sei!
E, um dia, mais saberei?

No não-saber que me cabe,
(e saber mais tanto quis!)
eu recordo a velha história
do irmão que cala o que sabe
ao que não sabe o que diz...
Ah, esta minha memória!...




José-Augusto de Carvalho
4 de Setembro de 2001 - 2 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

07 - CALEIDOSCÓPIO * Determinação


Sem manta por abrigo,

o céu sobre o meu dorso,

prossigo.

Sem medo nem esforço.

À chuva, ao frio, ao sol,

instante o movimento.

Se o chão é lamacento,

evito que me atole

buscando outro mais firme.

Comigo na bagagem,

pressinto diluir-me

no todo da paisagem.

E a singularidade

da minha condição

perde-se na voragem

duma pluralidade

onde as partes do todo

se esbatem nos devires do lodo...

Infinitude e caos - constante mutação.



José-Augusto de Carvalho
21 de Setembro de 2001 - 4 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal