terça-feira, 15 de julho de 2014

15 - CANTO REBELADO * Aqui

Sagres, Portugal * Foto Internet, com a devida vénia


Aqui, se rende ao mar a terra despojada.

Os sonhos de luar bordados na fragrância

florida dos jardins da lenda perfumada

sucumbem ao furor da ignara intolerância.



Do ledo murmurar das fontes a memória

esvai-se devagar num tempo de clausura.

Dos tempos de esplendor à mácula censória,

que triste condição ainda em nós perdura!



Que faço agora aqui com esta liberdade

se em tudo o verbo ter supera o verbo ser?

Que sonho de evasão eu posso desta grade

se a força do poder está no verbo ter?



Resisto e grito não! E ao sol deste dilema,

com sangue escrevo, letra a letra, este poema...





José-Augusto de Carvalho
15 de Outubro de 2006.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 2 de julho de 2014

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Pentacríptico




1.
No princípio, o verbo quis,

em conjugações obscuras,

ser grão e depois raiz

do chão projectando alturas...


Desnudo, no paraíso,

o par de divina essência

cantava, no tom preciso,

o elogio da indolência.


Do seu cume imperativo

e projectando o perfil

pelas lonjuras de anil,

deus olhava o par cativo.


E, certo da tentação,

provocou a transgressão.



2.
Expulso do paraíso

no primeiro alvorecer,

era ainda um improviso

a vida que houve de ser.


Adão pesou, pensativo,

o gesto da divindade

e a condição de ex-cativo,

encontrada a liberdade.


E naquela antemanhã,

que mal podemos supor,

percebeu por que a maçã

tinha um estranho sabor:


o sabor da inteligência

acordando a consciência.



3.
Pródiga era a natureza!

Tudo dava, hospitaleira...

Viver era uma beleza,

sem transtorno nem canseira.


Sentia às vezes saudade

do paraíso perdido...

Mas fora a sua vontade:

assim tinha decidido.


Lá, tinha que obedecer,

ser aplicado no estudo

e ouvir e não rebater...


A liberdade era assim:

não se podia ter tudo

dentro ou fora do jardim...



4.
Sem armas e sem abrigos,

um ninho nos ramos altos,

prevenia os sobressaltos

dos mais diversos perigos.


Nessa arte da construção

imitou os primos símios,

que eram astutos e exímios,

arquitectos de eleição.


Gozando a paz absoluta,

descobriu ser bom pensar:

e concluiu que uma gruta

era o lar a conquistar,


por ser melhor tal intento

do que viver ao relento.



5.
Um dia, o par decidiu

o que há de mais natural:

Eva emprenhou e pariu

o pecado original...


E do seu cálido ninho,

recendendo a puridade,

foi descoberto o caminho

terrestre da humanidade.


E tudo assim sem alarde,

nem hosanas nem prebendas...

Não foi cedo nem foi tarde.

Depois vieram as lendas,


vestindo de cor e rito

o simbolismo do mito.




José-Augusto de Carvalho
9 de Junho de 1998.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 15 de junho de 2014

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * O canto da minha gente

Obra do escultor Fernando Fonseca


O canto da minha gente!
A dolência que se evade
definindo a identidade
que o canto modula e sente…

São as papoilas vermelhas
sangrando por entre espigas…
São pastores e cantigas
nos balidos das ovelhas…

São os guizos nos molins,
em sinfonias ritmadas
dos trotes pelas estradas,
espantando os cachapins…

É a saudade magoada
cravada no coração
onde leveda a canção
no desespero amassada…

É o sol do meio-dia,
quando baila a tremulina
reflectindo na retina
o incêndio da Poesia…

É o fascínio da flor,
“rosa branca desmaiada”
na entrega desesperada
da vida a morrer de amor…



José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal
15 Junho de 2014.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * A transcendência do verbo




Quando o verbo proclama
a representação,
cega-nos o clarão
de iridescente chama…

É, noutra dimensão,
o anúncio dos sinais
transcendentais
da humana condição…

É o tempo interdito
onde o impossível
recusa o perecível
das aras do rito.


José-Augusto de Carvalho
29 de Abril de 2014.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 7 de maio de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Al Andalus




Na nostalgia, sangra a dívida da história.

Dos campos do Alentejo aos campos de Granada,

ginetes de luar, correndo à desfilada,

esventram o silêncio exausto da memória.



Que fonte de água pura ensaia a melopeia

em versos de cristal e lendas do Levante?

Ai, onde, Al Andalus, o aedo que te cante,

em noites de ternura e véus de lua-cheia?



As hostes infernais mataram o poeta

e a noite recusou ensanguentar o dia

que havia de nascer e nunca mais nasceu...



A mácula de sangue os campos atapeta.

Não mais, pela manhã, cantou a cotovia.

De luto a Poesia, a lira emudeceu.



José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal

terça-feira, 6 de maio de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O dia





Empalidece já o setestrelo,

abandonado, num delíquio casto.

Esvai-se num apelo,

sem queixume nem rasto.



A cotovia ensaia os seus trinados,

sorrindo madrigais de amanhecer,

azuis enamorados

de anseios por arder.



Os frescos arrebois primaveris

afagam a verdade da nudez

em transes juvenis

de afogueada avidez.



No incendiado azul do meio-dia,

a vida em seu pulsar se determina

quando beleza cria

com tons de tremulina.



E eu, contrafeito, fico-me, hesitante…

Que mais terá a vida de ensinar-me,

quando não me é bastante

este grito de alarme?





José-Augusto de Carvalho
5 de Maio de 2014.
Viana * Évora * Portugal




domingo, 20 de abril de 2014

06 - TUPHY VIVE! * Feitiço






Eu dei-te o céu azul da Pátria Transtagana
e o sonho alado num tapete de alfazema…
Vieste na ambrosia ardente dum poema,
na asas da maré subiste o nosso Odiana.

Pisaste o chão que foi de Mutamid outrora
e mitigaste a sede antiga que perdura
na fonte que ficou cantante de água pura,
casada com a dor de ferrugenta nora.

Trouxeste para mim carinhos de luar
e um albornoz tecido em milenar insónia.
Dos cálidos jardins da tua Babilónia,
vieste, perfumada e em flor, pra me encantar.

E neste encantamento, ausente já de mim,
mais um feitiço sou de um génio de Aladim.


José-Augusto de Carvalho
17 de Abril de 2014.
Viana*Évora*Portugal