domingo, 15 de junho de 2014

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * O canto da minha gente

Obra do escultor Fernando Fonseca


O canto da minha gente!
A dolência que se evade
definindo a identidade
que o canto modula e sente…

São as papoilas vermelhas
sangrando por entre espigas…
São pastores e cantigas
nos balidos das ovelhas…

São os guizos nos molins,
em sinfonias ritmadas
dos trotes pelas estradas,
espantando os cachapins…

É a saudade magoada
cravada no coração
onde leveda a canção
no desespero amassada…

É o sol do meio-dia,
quando baila a tremulina
reflectindo na retina
o incêndio da Poesia…

É o fascínio da flor,
“rosa branca desmaiada”
na entrega desesperada
da vida a morrer de amor…



José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal
15 Junho de 2014.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * A transcendência do verbo




Quando o verbo proclama
a representação,
cega-nos o clarão
de iridescente chama…

É, noutra dimensão,
o anúncio dos sinais
transcendentais
da humana condição…

É o tempo interdito
onde o impossível
recusa o perecível
das aras do rito.


José-Augusto de Carvalho
29 de Abril de 2014.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 7 de maio de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Al Andalus




Na nostalgia, sangra a dívida da história.

Dos campos do Alentejo aos campos de Granada,

ginetes de luar, correndo à desfilada,

esventram o silêncio exausto da memória.



Que fonte de água pura ensaia a melopeia

em versos de cristal e lendas do Levante?

Ai, onde, Al Andalus, o aedo que te cante,

em noites de ternura e véus de lua-cheia?



As hostes infernais mataram o poeta

e a noite recusou ensanguentar o dia

que havia de nascer e nunca mais nasceu...



A mácula de sangue os campos atapeta.

Não mais, pela manhã, cantou a cotovia.

De luto a Poesia, a lira emudeceu.



José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal

terça-feira, 6 de maio de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O dia





Empalidece já o setestrelo,

abandonado, num delíquio casto.

Esvai-se num apelo,

sem queixume nem rasto.



A cotovia ensaia os seus trinados,

sorrindo madrigais de amanhecer,

azuis enamorados

de anseios por arder.



Os frescos arrebois primaveris

afagam a verdade da nudez

em transes juvenis

de afogueada avidez.



No incendiado azul do meio-dia,

a vida em seu pulsar se determina

quando beleza cria

com tons de tremulina.



E eu, contrafeito, fico-me, hesitante…

Que mais terá a vida de ensinar-me,

quando não me é bastante

este grito de alarme?





José-Augusto de Carvalho
5 de Maio de 2014.
Viana * Évora * Portugal




domingo, 20 de abril de 2014

06 - TUPHY VIVE! * Feitiço






Eu dei-te o céu azul da Pátria Transtagana
e o sonho alado num tapete de alfazema…
Vieste na ambrosia ardente dum poema,
na asas da maré subiste o nosso Odiana.

Pisaste o chão que foi de Mutamid outrora
e mitigaste a sede antiga que perdura
na fonte que ficou cantante de água pura,
casada com a dor de ferrugenta nora.

Trouxeste para mim carinhos de luar
e um albornoz tecido em milenar insónia.
Dos cálidos jardins da tua Babilónia,
vieste, perfumada e em flor, pra me encantar.

E neste encantamento, ausente já de mim,
mais um feitiço sou de um génio de Aladim.


José-Augusto de Carvalho
17 de Abril de 2014.
Viana*Évora*Portugal

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA - Que flagelação?



A terra abandonada é um adil.
Cardos e urtigas – nada em profusão.
Estamos, sim, no augusto mês de Abril!
E nem um caule a prometer o pão!...

Sequer um manto de papoilas medra,
Jorrando sangue antigo deste chão.
Não resta mais que pedra sobre pedra
E o grito secular de um povo – não!

A verborreia ergueu os espantalhos.
Medrosa, a passarada, num desnorte,
Refúgio já buscou nos altos galhos,
e, mansa, loas canta à sua sorte…

E nesta prostração, de loa em loa,
o tempo no sem tempo se esboroa…



14 de Abril de 2014.
Viana * Évora * Portugal 

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Nesta hora




Palpitam dentro de mim

Saudades de Bernardim

E sedes do meu Xarrama!

E gritos que, sendo meus,

São os gritos doutros eus

Ardendo na mesma chama.



Nesta viagem finita,

Sou o azinho que crepita

Quando este sol tudo inflama.

E quando piso este chão,

sei que piso a solidão

que me espera e por mim chama.



E assim vou até que o fim

Me finde dentro de mim…





José-Augusto de Carvalho
19 de Abril de 2014.
Viana*Évora*Portugal