domingo, 20 de abril de 2014

06 - TUPHY VIVE! * Feitiço






Eu dei-te o céu azul da Pátria Transtagana
e o sonho alado num tapete de alfazema…
Vieste na ambrosia ardente dum poema,
na asas da maré subiste o nosso Odiana.

Pisaste o chão que foi de Mutamid outrora
e mitigaste a sede antiga que perdura
na fonte que ficou cantante de água pura,
casada com a dor de ferrugenta nora.

Trouxeste para mim carinhos de luar
e um albornoz tecido em milenar insónia.
Dos cálidos jardins da tua Babilónia,
vieste, perfumada e em flor, pra me encantar.

E neste encantamento, ausente já de mim,
mais um feitiço sou de um génio de Aladim.


José-Augusto de Carvalho
17 de Abril de 2014.
Viana*Évora*Portugal

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA - Que flagelação?



A terra abandonada é um adil.
Cardos e urtigas – nada em profusão.
Estamos, sim, no augusto mês de Abril!
E nem um caule a prometer o pão!...

Sequer um manto de papoilas medra,
Jorrando sangue antigo deste chão.
Não resta mais que pedra sobre pedra
E o grito secular de um povo – não!

A verborreia ergueu os espantalhos.
Medrosa, a passarada, num desnorte,
Refúgio já buscou nos altos galhos,
e, mansa, loas canta à sua sorte…

E nesta prostração, de loa em loa,
o tempo no sem tempo se esboroa…



14 de Abril de 2014.
Viana * Évora * Portugal 

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Nesta hora




Palpitam dentro de mim

Saudades de Bernardim

E sedes do meu Xarrama!

E gritos que, sendo meus,

São os gritos doutros eus

Ardendo na mesma chama.



Nesta viagem finita,

Sou o azinho que crepita

Quando este sol tudo inflama.

E quando piso este chão,

sei que piso a solidão

que me espera e por mim chama.



E assim vou até que o fim

Me finde dentro de mim…





José-Augusto de Carvalho
19 de Abril de 2014.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 22 de fevereiro de 2014

05 - IN MEMORIAM + Al-Mu´tamid




I

Quando soube de ti, 

era tarde demais 

para te conhecer! 



Quando soube de ti, 

era tarde demais 

para ouvir-te cantar!... 



Quando soube de ti, 

era tarde demais, 

tarde demais, em Beja? 




II 


Que jardins perfumaram 

a sombra enamorada 

de sonho e meio-dia? 



Que enfeitiçadas sedes 

mitigaram as fontes 

de espanto e sedução? 



Que inseguros trinados 

ensaiaram felizes 

hinos de primavera? 



Que ilusão me embriaga 

de respirar os ares 

que respiraste um dia? 




III 


Nos lábios de romã 

da doce Xerazade 

o dulçor dos teus versos… 



Os poentes de sangue 

entardecem ainda 

a tua amada Beja… 



Nas auroras de Maio, 

os campos em promessa 

da tua amada Beja… 




IV 


Enquanto houver memória 

de Vida e Poesia, 

nunca é tarde demais 

na tua amada Beja! 



Que por ti e por nós, 

assim seja, Poeta! 





José-Augusto de Carvalho 
29 de Janeiro de 2014. 
Viana * Évora * Portugal

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

05 - IN MEMORIAM * Poeta ZéFerro




A notícia chegou no poema.

Quando, em verso, se fala de morte,

há um barco buscando outro Norte

e é, no Hades, Caronte quem rema.



Só em verso se chora o desgosto

do poeta que vai de viagem.

Leva sonhos de luz na bagagem

e orvalhadas auroras no rosto.



Vai na busca dum outro poema,

mais além, nos azuis do infinito,

onde tudo é total e sereno.



Do meu chão, com olor de alfazema,

este adeus derradeiro e constrito

do meu braço a doer num aceno.





José-Augusto de Carvalho
17 de Fevereiro de 2014.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Alvorecer



Quando ainda mal clareia,

já a cotovia canta

a matinal melopeia

que do leito o sol levanta.



Vem o sol, estremunhado,

sem capa ou outro agasalho,

lavar o rosto ensonado

em puras gotas de orvalho.



São gotas de madrugada

mitigando a sede fria

da promessa alvoroçada

do raiar dum novo dia.



São a sede mitigada

da matinal cotovia.




José-Augusto de Carvalho
5 de Fevereiro de 2014.
Évora*Portugal

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

17 - HARPEJOS * Cantares... (16)




Soletro, em cada verso, harpejos de inocência,

na pálida cadência

do vago anoitecer...

*

E vou, de verso em verso, ousando o meu poema,

silvestre, de alfazema,

num vago conceber...

*

Os ritmos são de acaso, arfando ou suspirando,

assim, sem onde ou quando,

num vago acontecer...

*

As rimas, sem matiz, são vãs sonoridades,

num manto de ansiedades

de vago entretecer...

*

Escrevo devagar. De dia ou a desoras.

Meu tempo tem por horas

um vago discorrer...

*

Na folha de papel, que branca me seduz,

revérberos de luz

num vago entontecer...

*

Meus olhos semicerro à luz que me encandeia.

No verso que tacteia

um vago debater...

*

No peito, o coração, aos poucos, esmorece

e o verso desfalece,

num vago adormecer...

*

O verso derradeiro, o verbo imperecível,

extingue-se, impossível,

num vago emudecer...

*



José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal