sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

05 - IN MEMORIAM * Poeta ZéFerro




A notícia chegou no poema.

Quando, em verso, se fala de morte,

há um barco buscando outro Norte

e é, no Hades, Caronte quem rema.



Só em verso se chora o desgosto

do poeta que vai de viagem.

Leva sonhos de luz na bagagem

e orvalhadas auroras no rosto.



Vai na busca dum outro poema,

mais além, nos azuis do infinito,

onde tudo é total e sereno.



Do meu chão, com olor de alfazema,

este adeus derradeiro e constrito

do meu braço a doer num aceno.





José-Augusto de Carvalho
17 de Fevereiro de 2014.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Alvorecer



Quando ainda mal clareia,

já a cotovia canta

a matinal melopeia

que do leito o sol levanta.



Vem o sol, estremunhado,

sem capa ou outro agasalho,

lavar o rosto ensonado

em puras gotas de orvalho.



São gotas de madrugada

mitigando a sede fria

da promessa alvoroçada

do raiar dum novo dia.



São a sede mitigada

da matinal cotovia.




José-Augusto de Carvalho
5 de Fevereiro de 2014.
Évora*Portugal

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

17 - HARPEJOS * Cantares... (16)




Soletro, em cada verso, harpejos de inocência,

na pálida cadência

do vago anoitecer...

*

E vou, de verso em verso, ousando o meu poema,

silvestre, de alfazema,

num vago conceber...

*

Os ritmos são de acaso, arfando ou suspirando,

assim, sem onde ou quando,

num vago acontecer...

*

As rimas, sem matiz, são vãs sonoridades,

num manto de ansiedades

de vago entretecer...

*

Escrevo devagar. De dia ou a desoras.

Meu tempo tem por horas

um vago discorrer...

*

Na folha de papel, que branca me seduz,

revérberos de luz

num vago entontecer...

*

Meus olhos semicerro à luz que me encandeia.

No verso que tacteia

um vago debater...

*

No peito, o coração, aos poucos, esmorece

e o verso desfalece,

num vago adormecer...

*

O verso derradeiro, o verbo imperecível,

extingue-se, impossível,

num vago emudecer...

*



José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Falando de Carnaval...

Qualquer pessoa só se levanta depois de cair. Esta verdade, dita de La Palisse, é frequentemente esquecida pelos incautos e desprezada pela jactância militante.

Situações há em que da queda não se levanta, carecendo do auxílio alheio.

Verdade verdadinha que quase todos nós já demos uma queda e dela nos levantámos ou fomos levantados. Pois é, como diz o rifão, quem anda à chuva, molha-se…

Às vezes, por uma boa causa, arriscamos a intempérie. Aí, a molha vale como sacrifício recompensado.

Ah, mas outras vezes, arriscamos a intempérie por algo que não vale o sacrifício. E aí, ganhamos a molha e, não raro, uma constipação. Nestes momentos, vale a sabedoria que conheço desde criança: Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo.

Nem sempre discernimos a boa causa do logro. A sedução da boa causa leva o logro a vestir as roupagens da boa causa e é nessas situações que claudica o discernimento. Que fazer? É da humana condição a cedência à sedução, seja genuína, seja uma mascarada perversa.

Meditar nestas coisas vulgares do quotidiano é um exercício prudente e ensina-nos que todo o carnaval tem a sua quarta-feira de cinzas.

A quarta-feira de cinzas é, como sabemos, o primeiro dia da Quaresma, dia que simboliza o dever da conversão, logo a alteração da vida descuidada, etc.

Este carnaval que vivemos e consentimos terá a sua quarta-feira de cinzas. Uns vão na leva, outros ficam-se olhando o desfile, esperando nem eles saberão exactamente o quê. E assim, crédulos e incrédulos, olhamos a comédia a que assistimos e que simultaneamente representamos.



José-Augusto de Carvalho
19 de Janeiro de 2014.
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Estes versos...





São versos dos meus cuidados,

versos de amor e desvelos,

arabescos entrançados

que enfeitam enamorados

os teus sedosos cabelos.



São versos de ânsia e de dor

quando uma névoa de mágoa

envolvendo em seu palor

o esplendor do teu rubor

os meus olhos enche de água.



São versos, versos de espanto,

que inspiras e que te devo,

versos que choro e que canto

e te cobrem como um manto

dum estremecido enlevo.





José-Augusto de Carvalho
10 de Janeiro de 2014.
Viana * Évora * Portugal

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

10 -CANTO REVELADO * Sangue antigo, sangue meu!





Sangue deste sangue sou.

Sangue herdado, sangue antigo.

Sangue que se derramou

e a terra-mãe empapou

em sacrifício e castigo.



Sangue antigo, sangue herdado,

farol que nunca se apaga.

Rio na terra cavado,

no impulso desesperado

que se dá e tudo alaga.



Sangue das minhas entranhas,

pulsando nas correntezas

de perigos e artimanhas,

entre mitos e gadanhas

de antemanhãs de incertezas.



Sangue antigo, sangue meu,

sangue que jorra da fonte

que já banhou Prometeu

e garante que sou eu

quem rasga o meu horizonte.



José-Augusto de Carvalho
8 de Janeiro de 2014.


Viana * Évora * Portugal

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * A jornada de mim


(Rimance) 


Tela de Dórdio Gomes, Pintor Alentejano





Venho dos longes da Vida,

idos longes sem memória!

Que caminhada sofrida,

hoje apenas presumida

em hipóteses da História!



Na certeza de que sou

há os longes donde vim.

Quanto o tempo amortalhou

e a memória não guardou

resiste dentro de mim.



Na Terra por condição,

sou da Terra criatura.

Aqui ergui o padrão

que assinala a comunhão

do berço e da sepultura.



Desde sempre como o pão

pelo diabo amassado.

O diabo da traição

quando na desunião

por minha mão é criado.



Na Terra por condição,

desavindo perco a Terra

quando em sangue amasso pão,

quando nego o meu irmão

e, traindo, faço a guerra.



Quem é que come o meu pão

nas horas da minha fome?

Quem me impõe a privação

se a minha fome é o pão

que quem decide me come?




José-Augusto de Carvalho
21 de Novembro de 2013.
Viana * Évora * Portugal