Qualquer pessoa só se levanta depois de cair. Esta verdade, dita de La Palisse, é frequentemente esquecida pelos incautos e desprezada pela jactância militante.
Situações há em que da queda não se levanta, carecendo do auxílio alheio.
Verdade verdadinha que quase todos nós já demos uma queda e dela nos levantámos ou fomos levantados. Pois é, como diz o rifão, quem anda à chuva, molha-se…
Às vezes, por uma boa causa, arriscamos a intempérie. Aí, a molha vale como sacrifício recompensado.
Ah, mas outras vezes, arriscamos a intempérie por algo que não vale o sacrifício. E aí, ganhamos a molha e, não raro, uma constipação. Nestes momentos, vale a sabedoria que conheço desde criança: Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo.
Nem sempre discernimos a boa causa do logro. A sedução da boa causa leva o logro a vestir as roupagens da boa causa e é nessas situações que claudica o discernimento. Que fazer? É da humana condição a cedência à sedução, seja genuína, seja uma mascarada perversa.
Meditar nestas coisas vulgares do quotidiano é um exercício prudente e ensina-nos que todo o carnaval tem a sua quarta-feira de cinzas.
A quarta-feira de cinzas é, como sabemos, o primeiro dia da Quaresma, dia que simboliza o dever da conversão, logo a alteração da vida descuidada, etc.
Este carnaval que vivemos e consentimos terá a sua quarta-feira de cinzas. Uns vão na leva, outros ficam-se olhando o desfile, esperando nem eles saberão exactamente o quê. E assim, crédulos e incrédulos, olhamos a comédia a que assistimos e que simultaneamente representamos.
José-Augusto de Carvalho
19 de Janeiro de 2014.
Alentejo * Portugal
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Estes versos...
São versos dos meus cuidados,
versos de amor e desvelos,
arabescos entrançados
que enfeitam enamorados
os teus sedosos cabelos.
São versos de ânsia e de dor
quando uma névoa de mágoa
envolvendo em seu palor
o esplendor do teu rubor
os meus olhos enche de água.
São versos, versos de espanto,
que inspiras e que te devo,
versos que choro e que canto
e te cobrem como um manto
dum estremecido enlevo.
José-Augusto de Carvalho
10 de Janeiro de 2014.
Viana * Évora * Portugal
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
10 -CANTO REVELADO * Sangue antigo, sangue meu!
Sangue deste sangue sou.
Sangue herdado, sangue antigo.
Sangue que se derramou
e a terra-mãe empapou
em sacrifício e castigo.
Sangue antigo, sangue herdado,
farol que nunca se apaga.
Rio na terra cavado,
no impulso desesperado
que se dá e tudo alaga.
Sangue das minhas entranhas,
pulsando nas correntezas
de perigos e artimanhas,
entre mitos e gadanhas
de antemanhãs de incertezas.
Sangue antigo, sangue meu,
sangue que jorra da fonte
que já banhou Prometeu
e garante que sou eu
quem rasga o meu horizonte.
José-Augusto de Carvalho
8 de Janeiro de 2014.
Viana * Évora * Portugal
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * A jornada de mim
(Rimance)

Tela de Dórdio Gomes, Pintor Alentejano
Venho dos longes da Vida,
idos longes sem memória!
Que caminhada sofrida,
hoje apenas presumida
em hipóteses da História!
Na certeza de que sou
há os longes donde vim.
Quanto o tempo amortalhou
e a memória não guardou
resiste dentro de mim.
Na Terra por condição,
sou da Terra criatura.
Aqui ergui o padrão
que assinala a comunhão
do berço e da sepultura.
Desde sempre como o pão
pelo diabo amassado.
O diabo da traição
quando na desunião
por minha mão é criado.
Na Terra por condição,
desavindo perco a Terra
quando em sangue amasso pão,
quando nego o meu irmão
e, traindo, faço a guerra.
Quem é que come o meu pão
nas horas da minha fome?
Quem me impõe a privação
se a minha fome é o pão
que quem decide me come?
José-Augusto de Carvalho
21 de Novembro de 2013.
Viana * Évora * Portugal
terça-feira, 12 de novembro de 2013
13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Da memória vigilante...
Impenitente aprendiz, registo os sinais da memória vigilante: aqui, é um caminho sem pressa de chegar; ali, é um valado bem guardado de silvas, amodorradas ao sol, enquanto as suas amoras amadurecem a saborosa guloseima da passarada; além, é o monte silencioso, no abandono da terra; mais além, em todo o derredor, é o azul, numa campânula celeste de parada beleza.
Ah, querido Amigo, querida Amiga de outras paragens...
Se fores ao Alentejo,
não bebas em Castro Verde,
que as fontes cheiram a rosas
e a água não mata a sede.
O silvo de um comboio corta o silêncio. Os carris rasgam a imensidão das herdades. São raras as povoações servidas neste percurso ferroviário do Barreiro à Funcheira. Muitas das estações ficam a uma distância de quilómetros. Algumas já foram desactivadas e, ao abandono, arruinam-se. O critério que determinou o rasgar desta Linha de Sul não teve seguramente a finalidade de servir as populações. Assim foi no século XIX, assim foi no século XX, assim continua neste século XXI.
Aqui, as minhas primeiras idas a Lisboa eram uma aventura: de churrião, cumpria os quatro quilómetros da vila até à estação, estação que foi desactivada, se a memória me não trai, na década de sessenta do século XX.
Para utilizar a linha férrea, terei de cumprir seis quilómetros de táxi até à estação ferroviária mais próxima, em Vila Nova da Baronia, situada no concelho de Alvito.
Antes da activação do tabuleiro ferroviário da Ponte 25 de Abril, a linha de Sul levava-me ao Barreiro. Lá chegado, era a aventura da travessia do rio Tejo. Agora, mais comodamente, embarco em Vila Nova da Baronia e desembarco em Lisboa.
Que maravilha de serviço público!
Há mais de ano e meio, devido a internamento hospitalar de minha mulher, em Évora, durante o mês de Março, utilizei, diariamente, o transporte colectivo rodoviário. Apenas de segunda a sexta-feira, por não haver esse transporte aos sábados, domingos e feriados.
Longe, o Poder Central não tem disponibilidade para olhar para esta situação; perto, o Poder Local, que me conste, também não se preocupa com a situação deste município estar privado da sua estação ferroviária. E os munícipes aqui
permanecem esperando...
Outra maravilha de serviço público!
Este é, entre muitos, um quadro do país real.
Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal
Novembro de 2009.
Nota: Este texto é de Novembro de 2009. Em Novembro de 2013, a situação permanece.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Rimance na madrugada
Via Láctea
(Foto Internet, com a devida vénia)
Com a noite adormecia.
De madrugada, acordava,
sob este céu de magia,
que de estrelas pontilhava
a cósmica fantasia…
A estrada já conhecia
a sua certa passada.
E, diligente, lá ia,
a estrada por companhia,
no frescor da madrugada.
Já alerta estava o gado.
Os seus passos conhecia.
Depois de limpo e tratado,
estaria preparado
para o trabalho do dia.
Ao cantar da cotovia,
começava a dura lida.
Quando mal rompia o dia,
a charrua já abria,
na terra, as rugas da vida.
E de sol a sol, doía,
por tão pouco, tal dureza.
Tantas horas num só dia!
Dia que apenas valia
uma jorna de tristeza!
Quanto podia a lembrança
das histórias dos antigos,
sempre houvera por herança
esta desgraçada andança
dum rosário dos castigos.
Triste história desta Vida!
Alcatruzes duma nora,
ora vindo de subida,
ora indo de descida,
gemendo como quem chora!
Ai, que fatal movimento,
insistente, rodopia?
Onde encontra tanto alento
p’ra manter o movimento
que sufoca cada dia?
Os dias passam em vão.
E sempre iguais no passar.
Nesta fatal rotação
vai girando a negação
de não sair do lugar.
Ai, tanta sede! Onde a fonte
em que se possa ir beber?
Perdido de monte em monte,
quem roubou o horizonte
da manhã a amanhecer?
José-Augusto de Carvalho
10 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal
terça-feira, 5 de novembro de 2013
16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * O remorso de Tomé
O avisado e incrédulo Tomé sabia que a sua terra vivia tempos difíceis. A nostalgia da promessa do pão repartido ameaçava desvanecer-se como uma miragem? A velha Estrada de Damasco perdera também o fascínio de outras eras? Sem memória nem alento, o tempo parara? As legiões estrangeiras impunham a Lei estrangeira. Os vendilhões reverenciavam os opressores e comiam sofregamente as migalhas da mesa da abastança paga pelos impostos que esmagavam o povo sob a divisa trágica: A César o que é de César! Numa ironia obscena, era de César o dinheiro do povo subjugado à Lei opressiva e estrangeira…
Ah, mas os velhos falavam da utopia, segurando nas mãos trémulas os cajados que iam amparando o que restava do alento de outros tempos.
Os meninos já não jogavam ao berlinde nem ao pião; as meninas já não jogavam as sete pedrinhas nem cantavam de roda o jardim da celeste; os adolescentes já não disputavam o espaço com os seus papagaios de papel; as adolescentes já não olhavam para a sombra nem sonhavam ruborizadas com os enleios da puberdade. Já não! Agora, desgraçadamente, os novos absorviam valores estranhos, que os envileciam e descaracterizavam; valores que mais e mais provocavam a sua dependência e a sua pobreza.
Da mesa da abastança estrangeira continuavam caindo as migalhas caritativas. Quem dá aos pobres, empresta a Deus! E assim persistiam, num desafio, os reverenciados esmoleres e os seus indispensáveis mendigos. A caridadezinha dos poderosos impunha-se e esmagava os direitos de um povo!
Por oposição à utopia dos velhos, os novos, formatados pela opressão alienante, acreditavam ter descoberto que as estradas eram só estradas e recusavam-lhes o fascínio do simbolismo duma direcção.
E o mar, ah, o mar!, era apenas o ócio da praia ensolarada e os mergulhos nas ondas que vinham desmaiar docemente no areal. O mar já não era mais a largada nem o regresso! O mar já não era mais o ponto de partida e o ponto de chegada!
E os campos, ah os campos!, eram a faina ultrapassada das searas de pão; eram a labuta ultrapassada das hortas donde vinham as couves e as batatas, as alfaces e o feijão, os espinafres e o grão de bico; eram os perdidos pomares, sempre melindrosos, donde vinham os frutos maduros, suculentos e doces; eram as vinhas imensas dourando ao sol no milagre do vinho a haver; eram os hoje cada vez mais raros animais mansos e os animais bravios numa partilha nem sempre harmoniosa do espaço; eram, afinal, o pão suado e honesto da ceia que a Lei estrangeira e os vendilhões haviam tornado impossível.
Os velhos interrogavam-se: como chegámos aqui? Onde errámos na preparação dos nossos filhos e, por eles e com eles, a construção dos Tempos? Que força impõe um templo de fariseus e de cambistas? Para quando um novo chicote expulsando de vez os vendilhões do Templo da Pátria?
Exausto, o velho Tomé, meneando cabeça, dizia de si para si: de que me serviu ser avisado? De que me serviu ser incrédulo? O meu remorso será sempre não ter deixado a mensagem fundamental: Quem não luta, perde sempre!
José-Augusto de Carvalho
5 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal
Ah, mas os velhos falavam da utopia, segurando nas mãos trémulas os cajados que iam amparando o que restava do alento de outros tempos.
Os meninos já não jogavam ao berlinde nem ao pião; as meninas já não jogavam as sete pedrinhas nem cantavam de roda o jardim da celeste; os adolescentes já não disputavam o espaço com os seus papagaios de papel; as adolescentes já não olhavam para a sombra nem sonhavam ruborizadas com os enleios da puberdade. Já não! Agora, desgraçadamente, os novos absorviam valores estranhos, que os envileciam e descaracterizavam; valores que mais e mais provocavam a sua dependência e a sua pobreza.
Da mesa da abastança estrangeira continuavam caindo as migalhas caritativas. Quem dá aos pobres, empresta a Deus! E assim persistiam, num desafio, os reverenciados esmoleres e os seus indispensáveis mendigos. A caridadezinha dos poderosos impunha-se e esmagava os direitos de um povo!
Por oposição à utopia dos velhos, os novos, formatados pela opressão alienante, acreditavam ter descoberto que as estradas eram só estradas e recusavam-lhes o fascínio do simbolismo duma direcção.
E o mar, ah, o mar!, era apenas o ócio da praia ensolarada e os mergulhos nas ondas que vinham desmaiar docemente no areal. O mar já não era mais a largada nem o regresso! O mar já não era mais o ponto de partida e o ponto de chegada!
E os campos, ah os campos!, eram a faina ultrapassada das searas de pão; eram a labuta ultrapassada das hortas donde vinham as couves e as batatas, as alfaces e o feijão, os espinafres e o grão de bico; eram os perdidos pomares, sempre melindrosos, donde vinham os frutos maduros, suculentos e doces; eram as vinhas imensas dourando ao sol no milagre do vinho a haver; eram os hoje cada vez mais raros animais mansos e os animais bravios numa partilha nem sempre harmoniosa do espaço; eram, afinal, o pão suado e honesto da ceia que a Lei estrangeira e os vendilhões haviam tornado impossível.
Os velhos interrogavam-se: como chegámos aqui? Onde errámos na preparação dos nossos filhos e, por eles e com eles, a construção dos Tempos? Que força impõe um templo de fariseus e de cambistas? Para quando um novo chicote expulsando de vez os vendilhões do Templo da Pátria?
Exausto, o velho Tomé, meneando cabeça, dizia de si para si: de que me serviu ser avisado? De que me serviu ser incrédulo? O meu remorso será sempre não ter deixado a mensagem fundamental: Quem não luta, perde sempre!
José-Augusto de Carvalho
5 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal
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