terça-feira, 5 de novembro de 2013

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * O remorso de Tomé

O avisado e incrédulo Tomé sabia que a sua terra vivia tempos difíceis. A nostalgia da promessa do pão repartido ameaçava desvanecer-se como uma miragem? A velha Estrada de Damasco perdera também o fascínio de outras eras? Sem memória nem alento, o tempo parara? As legiões estrangeiras impunham a Lei estrangeira. Os vendilhões reverenciavam os opressores e comiam sofregamente as migalhas da mesa da abastança paga pelos impostos que esmagavam o povo sob a divisa trágica: A César o que é de César! Numa ironia obscena, era de César o dinheiro do povo subjugado à Lei opressiva e estrangeira…

Ah, mas os velhos falavam da utopia, segurando nas mãos trémulas os cajados que iam amparando o que restava do alento de outros tempos.

Os meninos já não jogavam ao berlinde nem ao pião; as meninas já não jogavam as sete pedrinhas nem cantavam de roda o jardim da celeste; os adolescentes já não disputavam o espaço com os seus papagaios de papel; as adolescentes já não olhavam para a sombra nem sonhavam ruborizadas com os enleios da puberdade. Já não! Agora, desgraçadamente, os novos absorviam valores estranhos, que os envileciam e descaracterizavam; valores que mais e mais provocavam a sua dependência e a sua pobreza.

Da mesa da abastança estrangeira continuavam caindo as migalhas caritativas. Quem dá aos pobres, empresta a Deus! E assim persistiam, num desafio, os reverenciados esmoleres e os seus indispensáveis mendigos. A caridadezinha dos poderosos impunha-se e esmagava os direitos de um povo!

Por oposição à utopia dos velhos, os novos, formatados pela opressão alienante, acreditavam ter descoberto que as estradas eram só estradas e recusavam-lhes o fascínio do simbolismo duma direcção.

E o mar, ah, o mar!, era apenas o ócio da praia ensolarada e os mergulhos nas ondas que vinham desmaiar docemente no areal. O mar já não era mais a largada nem o regresso! O mar já não era mais o ponto de partida e o ponto de chegada!

E os campos, ah os campos!, eram a faina ultrapassada das searas de pão; eram a labuta ultrapassada das hortas donde vinham as couves e as batatas, as alfaces e o feijão, os espinafres e o grão de bico; eram os perdidos pomares, sempre melindrosos, donde vinham os frutos maduros, suculentos e doces; eram as vinhas imensas dourando ao sol no milagre do vinho a haver; eram os hoje cada vez mais raros animais mansos e os animais bravios numa partilha nem sempre harmoniosa do espaço; eram, afinal, o pão suado e honesto da ceia que a Lei estrangeira e os vendilhões haviam tornado impossível.

Os velhos interrogavam-se: como chegámos aqui? Onde errámos na preparação dos nossos filhos e, por eles e com eles, a construção dos Tempos? Que força impõe um templo de fariseus e de cambistas? Para quando um novo chicote expulsando de vez os vendilhões do Templo da Pátria?

Exausto, o velho Tomé, meneando cabeça, dizia de si para si: de que me serviu ser avisado? De que me serviu ser incrédulo? O meu remorso será sempre não ter deixado a mensagem fundamental: Quem não luta, perde sempre!



José-Augusto de Carvalho
5 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

01 - PÓRTICO * O meu (primeiro) testamento





Introdução

Ninguém pode encontrar-se ou perder-se em caminhos que sempre recusou percorrer.


Cidadania

Estou onde sempre estive, progressivamente mais firme nas convicções e mais decidido na sua defesa sustentada.

No caminho percorrido, deparei-me, como era inevitável, com perspectivas que recusei subscrever. É dura esta difícil caminhada! Mas ceder a cantos de sereia acaba sempre em perdição.

Hoje como ontem, reclamo-me aluno da Escola da Vida: estudo e aprendo. Numa constante revisão da matéria dada, corto aqui, acrescento ali.

Aceito como boa orientação a dúvida sistemática. Sou um daqueles que entendem haver muitas dúvidas e raras certezas. Sem nunca perder de vista o objectivo último, a correcção da rota é uma tarefa de todos as horas.

Não carrego no meu bornal a obstinação nem a auto-suficiência; são mantimentos que rejeito por indigestos.

Prezo a ponderação e a discussão; delas sempre nasce a luz possível que nos alumia. E, entre companheiros de jornada, não perco nem ganho debates de ideias: contribuo; não imponho e não tolero imposições. Na grande jornada da Humanidade, o contributo de todos é indispensável. Por dever e por respeito por mim e pelos outros.


Literatura 


Leio desde criança; escrevo desde criança.

Quanto ao que li, li de tudo, em boa verdade, mas tentei privilegiar a qualidade; a qualidade sempre relativa que o peso dos anos intenta sublimar.

Quanto ao que escrevo, ajuizará quem me ler. Não sou nem pretendo ser juiz em causa própria. Apenas posso garantir que procuro ser decente. Será pouco? Para mim, é um tudo de que não abdico.

No meu percurso, há livros publicados e textos em antologias. É o meu passado atestando etapas cumpridas.

Posteriormente, tive ofertas de publicação que recusei. E soube, até, de quem tivesse a pretensão de ajudar-me, confundindo divulgação de um trabalho com benemerência.

Distante de tertúlias por opção, comigo conto. E porque assim é, suporto o encargo deste isolamento que escolhi.

Na Literatura, serei ou não o que tiver de ser, mas sempre por merecimento e nunca por favor.

Quase tudo quanto escrevo está publicado em alguns espaços da Internet. Se, um dia, algum editor me ler e desejar editar-me, estarei disponível para ponderar a hipótese. Se tal oportunidade não surgir, talvez, um dia, eu decida assumir o encargo da publicação ou arrumar as centenas de páginas escritas na gaveta das inutilidades.

Se optar pela publicação, o favor ou desfavor dos meus concidadãos será da sua exclusiva responsabilidade. Sem recriminações, aceitarei o seu veredicto. E por uma óbvia razão: se a eles decidir destinar o resultado deste meu labor, a eles competirá aceitá-lo ou recusá-lo.

Hoje, é assim. Nada de definitivo existe sob o Sol.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
1 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * No princípio...




Naquele tempo, os senhores

ainda eram só pastores.


Sofriam o tempo agreste

lado a lado com os servos

e olhavam os seus acervos

como uma bênção celeste.


Já nesse tempo a riqueza

era um privilégio raro

e afrontava a natureza

com loas ao desamparo.


Já então o verbo erguia,

em armadilhas e ardis,

o poder que anestesia

os rebanhos nos redis.




José-Augusto de Carvalho
25 de Outubro de 1998.
Viana*Évora*Portugal

terça-feira, 29 de outubro de 2013

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Há um barco rumando a nenhures!


Estive a reler o período da nossa História definido como Regeneração. Como todos sabemos, e também assim no-lo confirma Houaiss, no seu Dicionário da Língua Portuguesa, regenerar significa efectuar nova organização em, reorganizar, etc.

Agora, não valerá a pena deter-me no que li, mas, tão-só, deter-me na palavra regeneração, no seu significado e no modo como se perfila e me exige que a pondere nestes nossos tempos de hoje.

Com o decorrer dos tempos, com as sempre nefastas intromissões da rotina, com as influências dos incautos ou impreparados, etc., as degenerescências instalam-se, gradualmente. E é isto que reclama a regeneração.

É saudável parar para avaliar cada troço do caminho percorrido. Fazer, afinal, aquilo que os mareantes designam por correcção da rota.

Os condutores da marcha, aqueles a quem incumbe determinar as escolhas do caminho adequado, são os mesmos de quem Fernando Pessoa nos fala no seu poema O Mostrengo quando coloca na boca do piloto da nau estas palavras decisivas: «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um povo que quer o mar que é teu...»

Confiar nos condutores da marcha significa uma delegação de um poder e não uma sujeição. O condutor de uma marcha não é uma autoridade arbitrária sobre os demais, é uma capacidade, capacidade que deve ser avaliada a todo o momento. Sabemos que errar é humano; e também sabemos ser humana a decisão de corrigir esse erro. Se bem que também seja humano, insistir no erro é atitude pouco inteligente e sempre prejudicial. Daqui se extrai a meridiana conclusão de ter de ser substituído quem não cumpre a tarefa que lhe foi confiada. E quando o erro não é corrigido ou quando o condutor da marcha não é substituído devido à sua inépcia, aqueles que abandonam um barco sem rota ou à deriva fazem-no porque não têm poder para alterar a situação, restando-lhes assumir a sua indisponibilidade de continuar a caminhar para nenhures.

Que trágico é olharmos um barco navegando rumo a nenhures!



José-Augusto de Carvalho
28 de Outubro de 2013.
Alentejo * Portugal

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

15 - CANTO REBELADO * A recusa





Recuso ser, na noite, a sombra que desenha

a angústia indefinida e fria deste cais.

O que tiver de vir, se mais houver, que venha,

Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!



O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas

ensaiam os sinais das barcas à deriva.

Que velhas perdições?! Na consciência delas,

assombram predições doendo em carne viva.



Que venham os pinhais gritar o desafio

do tempo por haver que acena o amanhecer

além deste torpor indefinido e frio!



Que venha a tentação sortílega tecer,

com arte e com engenho, o já lendário fio

da espera que germina um novo acontecer!...




José-Augusto de Carvalho
20 de Abril de 2010
Viana*Évora*Portugal

domingo, 27 de outubro de 2013

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Perturbação




O leite e o mel... as delícias 


decantadas do Jardim! 

As origens adventícias 

e subvertidas de mim... 


Sou e existo porque vim. 

Quantas certezas fictícias, 

esculpidas no marfim, 

doem mais do que sevícias! 


Mitologias propícias 

ao meu delírio de mim... 

porque não foram, mas disse-as, 

decantaram o Jardim! 


Que doído encantamento 

vivo e sou porque me invento! 




José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal

sábado, 26 de outubro de 2013

10 - CANTO REVELADO * Revelação



A dúvida foi sempre o meu escudo.

A dúvida de ser e perceber.

Com nuvens prenhes de água não me iludo,

por não poder chegar-lhes e beber.



E quando a chuva cai a prometer

o fim da tentação, eu testo tudo,

na dúvida constante de saber

se comprovado está ou se me iludo.



Minh’alma sempre à dúvida se deve,

numa ânsia angustiada de manhã!

Os sonhos de infinito em que se atreve

quer livres da serpente e da maçã!



No Céu há tanta estrela a lucilar

sorrindo da inconstância do luar!




José-Augusto de Carvalho
12 de Julho de 2002.
Viana*Évora*Portugal