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terça-feira, 24 de setembro de 2013

15 - CANTO REBELADO * Da humana condição


Caos * Foto Internet, com a devida vénia.



É quando a morte chega à Feira das Vaidades
que ganha nitidez a nossa condição.

É quando o sal amarga e queima as veleidades
que a morte nos reduz à nossa dimensão.

É quando a luz do sol, cegando o vaga-lume,
esmaga a pequenez da néscia presunção.

É quando por grasnar chilreio se presume
que uma qualquer lamúria intenta ser canção.

É quando a Lua-cheia incita à tentação
que a noite se revela enleio enamorado.

É quando não há mais varinhas de condão
que o charlatão se quer o príncipe encantado.

É quando já ninguém consegue acreditar
que o verso em armas faz da vida o seu altar.


José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal

15 - CANTO REBELADO * Vergonha




Foto Internet, com a devida vénia.


Os corpos insepultos e os abutres...
Carnificina e horror de que te nutres!

Na escuridão do medo, ecoam gritos.
No cimo, errantes, tremeluzem astros.
No chão doído, informes, os detritos,
anúncio e precedência doutros rastros.

No céu, se evola, em mancha nebulosa,
suspensa sobre a lei da gravidade,
o magma, que na via dolorosa,
expia condição e claridade.

No circo, a turba exalta, em sangue, o trono.
César exibe a túnica escarlate. 
Na arena, em agonia e abandono,
as levas condenadas ao abate.


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Abril de 1997.

15 - CANTO REBELADO * Desgosto



Goya * Foto Internet, com a devida vénia.

Com o coração a sangrar em Timor

É este circo global,
onde os monstros se amontoam
e onde até os répteis voam,
em trágico carnaval...

É esta arena sangrenta
de presas e predadores,
donde a justeza se ausenta,
onde só florescem dores...

É esta angústia pungente,
onde a morte omnipresente
é o crime sem perdão...

É este pântano todo
afogando-se no lodo
de agonia e de aflição...


José-Augusto de Carvalho
7 de Setembro de 1999.
Viana*Évora*Portugal

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

15 - CANTO REBELADO * E tanto mar!...


Foto Internet, com a devida vénia.


Já nem um arrepio o corpo sobressalta?

O tempo passa e com o tempo vou passando.
E fica para trás o como, o onde, o quando…
Será que tenho tudo e já nada me falta?

Talvez me falte a paz, a paz que nunca tive…
Que eu tenho céu azul e sol e tanto mar!
E um cais que se rendeu… e urgente é navegar
além do Cabo Não que nega quanto vive!

E nesta calmaria, inúteis são as velas.
Nem ventos de feição nem ventos de procelas
agitam este mar e acordam este cais…

E dói a solidão na ausência do convés.
Vagueio sem destino e já nem sinto os pés.
Exausto, neste fim de mim, quisera mais!


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 27 de Julho de 2010.

15 - CANTO REBELADO * Recado


Foto Internet, com a devida vénia.


Não tenho para dar-te boas novas,

apenas recorrências pueris,
vestidas de cadência e de matiz,
medidas no carpir das velhas trovas.




São choros, são lamentos, são desvelos,
são o Passado morto em procissão,
errando na sombria evocação
de mágoas, de renúncias, de atropelos...




E o sol, que nasce sempre à hora certa
e aponta os amanhãs à nossa frente,
pergunta-se perplexo: que Presente
só de Passado o seu relógio acerta?




E o Tempo, porque o Tempo é a passagem,
lá vai, determinado, de viagem...





José-Augusto de Carvalho
30 de Dezembro de 2012.
Viana*Évora*Portugal

15 - Canto rebelado * A bandeira da Vida


Foto Internet, com a devida vénia.

Caminhemos! Além do cerro, caminhemos!
Sob a névoa, há sinais do fogo que se ateia.
Enrubesce a manhã. E o seu clarão semeia
primaveras de nós. Ousados, caminhemos!

A bandeira da Vida, ao alto, desfraldemos!
Com a força do braço e da vontade plena!
No futuro do olhar, o longe já acena.
Sem temor nem cansaço, ousados, caminhemos!

Já perdeu quem ficou na renúncia da espera.
Já perdeu quem escolhe o pão da rendição.
Ah, que seja amassada esta fome do pão
em cansaços que só a liberdade gera!

É de mim e de ti, de nós todos, nesta hora,
a razão de partir «por esses campos fora»!...


José-Augusto de Carvalho
30 de Junho de 2013.
Viana * Évora * Portugal

domingo, 22 de setembro de 2013

15 - Canto rebelado * Perturbação

Foto Internet, com a devida vénia.


As grades nas janelas.
O plúmbeo das vidraças.
As hirtas sentinelas.
As vagas luzes baças.

Novelos de água densa.
O frio rodopio.
A túnica suspensa
do corpo-desafio.

As ondas de outros mares.
Os gritos sufocados.
Os medos nos esgares
dos barcos ancorados.

As bússolas incertas.
À tona as caravelas.
As mágoas descobertas,
velórios de outras velas.

Silêncio, escuro, nada.
Farol na tempestade.
Sem cor nem claridade,
a lâmpada apagada.

Mataram Aladim.
Mataram a essência.
Nem chamam mais por mim
meus sonhos de inocência...


José-Augusto de Carvalho
10 de Outubro de 2002.
Viana*Évora*Portugal

15 - Canto rebelado * As sombras sortílegas

Foto Interneto, com a devida vénia.



No caminho, assentou a canseira.
Nem vestígios das tuas pegadas.
Solitárias, as velhas estradas
sob um manto de sol e poeira.

Do que foste ou não foste, não mais
a memória guardou o registo.
Neste Mundo de Cristo sem Cristo,
são de inércia e renúncia os sinais.

Sob a noite, as estradas paradas,
rememoram silêncios em guarda
e sortílegas sombras vadias...

São as horas, no tempo cansadas,
a velar a promessa que tarda
duma aurora que nunca verias...


José-Augusto de Carvalho
16 de Outubro de 2011.

Viana*Évora*Portugal

15 - Canto rebelado * Ansiedade

Foto Internet, com a devida vénia.


Há, nesta terra, a raiz,
o caule, a dourada espiga
e a fome, numa cantiga,
desencontrando um país.

Há saudades do Passado,
há saudades do Futuro
no meu país que procuro
em cada arado parado.

Há mais joio do que pão.
No abandono da paisagem,
apenas, à sua imagem,
o peso da solidão.

E os silêncios e os adis
já nem guardam na lembrança
as searas de esperança
na promessa de um país!

Há, apenas, os presságios
de temores e procelas
arrastando as caravelas
para quantos mais naufrágios?

Ah, que nesta dor extrema,
de ansiedade permanente,
seja salvo, novamente,
o meu país, num poema!


José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 10 de Setembro de 2010

15 - Canto rebelado * O verbo incómodo

Foto Internet, com a devida vénia.


As vítimas do tempo e o temos dos algozes.
Incómodo é, no tempo, o tempo em desafio.
Em cada pôr de sol, cinzento, insone e frio,
deslumbram-se, a sangrar, brutais apoteoses.

O tempo que se quer, no verbo o seu agir.
Eu sou, tu és, ele é, nós somos o sujeito.
O medo arranca, a frio, o coração do peito
e o corpo inerme cai, doendo, a sucumbir.

O tempo convenção, exacto e por medida.
O tudo e o nada, o perto e o longe, aquém e além.
O amor e a dor, a paz e a guerra, o mal e o bem.
No cativeiro jaz a terra prometida.

O tempo já cumprido e o tempo por cumprir.
Sem Judas nem Cains, o sonho a resistir.


José-Augusto de Carvalho
4 de Junho de 1997.

Viana*Évora*Portugal

sábado, 21 de setembro de 2013

15 - Canto rebelado * A caminhada

Foto Internet, com a devida vénia.

                                                      Para o Poeta Herculano Alencar

Na palavra é que vou e me enfrento,
neste outono amarelo da vida.
Nas rajadas infrenes do vento
meu destino de folha caída.

No bornal, a palavra atrevida
na saudade que ainda acalento:
primavera no sonho tecida
com delírios de sal e fermento.

Ajudando o meu passo indeciso,
o cajado me ampara e tacteia
o caminho que experto preciso.

Só o sol, que no céu alardeia
egotismos de instante Narciso,
se diverte e de luz me encandeia.



José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal

18 de Outubro de 2009.

15 - Canto rebelado * Urgência

Foto Internet, com a devida vénia


O relógio parado.
Há um tempo de assombros
neste fardo pesado
esmagando-me os ombros.

Quando um número primo,
do comando, a pantalha enrubesce
e, no fundo do pântano, o limo
é notícia e floresce

É urgente o momento total,
situando um presente sem muros
e um jogral
prevenindo os futuros...

É urgente
sermos gente!



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 8 de Maio de 1997. 

15 - Canto rebelado * A barca da esperança

Foto Internet, com a devida vénia.



Cidadão vulgar deste país,
tenho sonhos de Abril e pesadelos de Novembro.

Da noite sem estrelas nem luar
guardo a tristeza da escuridão
e os sobressaltos do medo
de ser aqui a renúncia de mim.

Por caminhos de malandar,
gastei metade da vida…
De outros caminhos eu soube,
mas nunca os quis para mim.

Panteísta por desígnio da esperança,
sempre entrevi as flores silvestres
atapetando as estradas da vida…

Na madrugada de um Abril já distante,
soube da cidade a despertar
e do milagre das flores encravando os canos das espingardas
com aromas de fraternidade.

Maldesperto, vi o clarear do dia e acreditei…
...acreditei na primavera.

E, na barca da esperança, lá fui, sobre as ondas da ousadia!
E quando ventava rijo, a barca estremecia, estremecia, mas ia…
Ah, mas uma noite, os vigias de quarto não souberam ler o mar!…
E o homem do leme, porque não quis ser mais do que ele,
temeu o mar e rendeu-se aos escolhos de Novembro.

Na noite do pesadelo, quando o vento sopra rijo,
ainda se ouvem os gritos dos náufragos da barca da esperança…


José-Augusto de Carvalho
3 de Agosto de 2008.

Viana * Évora * Portugal

15 - Canto rebelado * Ibéria

Foto Internet, com a devida vénia.


Os Pirenéus são a fronteira natural.
Aquém se estende a Ibéria…
…deslumbrando-se nos poentes incendiados
donde lhe acena o Novo Mundo!
…encantando-se nos mistérios do Meio-dia,
onde adivinha maravilhas de ébano
e rotas salgadas de pimenta e canela!

Lê nas estrelas o destino da largada!
O pátrio solo ibérico apenas é o cais,
o cais determinando a partida inevitável
para o mundo ignoto que chama, chama, chama!…
É a predestinação!
E vai, sobre as ondas lavadas de aventura e liberdade,
abraçar o longe, que mora além do medo e da renúncia!
E deixa para trás as terras de Espanha
e as areias de Portugal!
No cais da largada, ficam as viúvas do medo
acenando o adeus soluçante,
que será ou não
o adeus de nunca mais!
Os lenhos singram ligeiros nas rotas da tontura!
Os mastros gemem, gemem… mas não quebram!
As velas, prenhes de longe e de evasão,
voam na distância mais e mais!
E os lenhos enfrentam o Cabo Não!
E dobram o Cabo Não!
E vão até ao Fim do Mundo!


Além dos Pirenéus, expectante,
um mundo outro que escolhera ficar,
assumindo a separação definitiva.



José-Augusto de Carvalho
5 de Agosto de 2008.
Viana  *Évora * Portugal

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

15 - Canto rebelado * Noite de insónia

Via Láctea - Foto Internet, com a devida vénia


Nesta noite de insónia, perscruto
o sem fim deste céu absoluto.

São caminhos e viagens astrais.
Na distância, é o cais estelar.
Tantos cabos dobrei! Quantos mais
eu ainda terei de dobrar?

É tão longe esse cais que diviso!
E já tanto me pesam os anos!
Não me deixo ficar indeciso,
que não temo os ignotos oceanos...

Se negado me for o carinho
de atracar nesse cais derradeiro,
que mereça, a rasgar o caminho,
a certeza de que é verdadeiro...


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 25 de Janeiro de 2012.

15 - Canto rebelado * Perplexidade

Foto Internet, com a devida vénia.


Perscruto a massa das palavras várias.
Com elas tento o por haver do verso:
O ritmo belo ou o fulgor das árias;
um arco íris de esplendor disperso.

E nada encontro para além do rito
vulgar e baço deste dia a dia...
Poeta-génio, assombração do mito,
que vida em ti além da minha havia?

Que flores belas de perfume raro?
Que sonhos lindos de esperança viva?
Que antemanhãs descortinaste ledos?

Aqui, confesso-me um lapuz ignaro,
olhando a vida que se esvai esquiva,
deixando-me hirtos os infrenes dedos...


José-Augusto de Carvalho
12 de Março de 2012.
Viana*Évora*Portugal

15 - Canto rebelado * Sede

Foto Internet, com a devida vénia.


Mitigo na palavra a minha sede.
A sede de saber mais do que sei.
Até o que se escreve na parede,
quando, a desoras, dorme a iníqua lei.

A sede das manhãs que livres rompem
as névoas das censuras e do medo
e afronta as vergastadas que corrompem
a primavera e matam em segredo.

A sede do amanhã que se mitiga
nos versos insubmissos da cantiga
que rasgam os silêncios clandestinos.

A sede da semente a germinar,
que quer ganhar raízes e brotar
além do chão alturas e destinos.


José-Augusto de Carvalho
21 de Dezembro de 2011.
Viana * Évora * Portugal

15 - Canto rebelado * O embuste

Foto Internet, com a devida vénia.




Cada dia que passa o mundo é mais pequeno.
As notícias que chegam desnudam as misérias do embuste,
do embuste que se reclama dos direitos humanos.

O embuste que avilta a dignidade dos homens,
O embuste que enlameia a honra das mulheres,
O embuste que assassina a inocência das crianças,
O embuste que disputa os despojos da infâmia que gera.

O embuste que, em frenético leilão,
Compra e vende consciências.

O embuste que clama pelo fim dos tempos:
É preciso vender!
É urgente vender!
É inadiável vender
As manhãs orvalhadas de vida,
As noites enamoradas dos rouxinóis,
O mar salgado de lágrimas dos desencontros dos amantes,
As auroras da esperança!

O embuste que inventou os pobres
e lava a consciência das aparências
nas águas salobras da caridadezinha e das esmolas.

O embuste que inventou a lotaria,
a lotaria que faz um rico e desespera milhões de pobres...

O embuste da palavra que anestesia os ofendidos
e tortura os sonhos da noite da servidão.

O embuste que vocifera do cimo do palanque:
É preciso calar os gritos dos humilhados!
É urgente sufocar o sangue dos revoltados!
É inadiável crucificar todos os perigosos malvados,
esses perigosos malvados que sabem conjugar
o verbo em todos os tempos!


José-Augusto de Carvalho
1 de Julho de 2013
Viana * Évora * Portugal