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quinta-feira, 16 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O desafio



QUE VIVA O CORDEL!





Por que tentas limitar-me

às velhas rotas de outrora?

Por que não posso encontrar-me

nas rotas que invento agora?



Velhos caminhos me apontas,

que já sei onde vão dar…

Se supões que me amedrontas,

não tenho medo de ousar.



Escrito está nas estrelas:

há sempre uma rota nova.

Só o que recusa lê-las

no desafio reprova.



Se só temos uma vida,

cumpri-la é nosso dever.

Vida que não é cumprida,

não se soube merecer.



Se o relâmpago é tão breve

e quase nos quer cegar,

é a vida longa ou breve?

Que seja enquanto durar!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Março de 2017.

quarta-feira, 15 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Aguarela da Vida


QUE VIVA O CORDEL!








Nenhum rouxinol cantou 

e era noite de luar. 

No silêncio que pesou, 

só um mocho que agoirou 

errâncias de mal andar… 



Vem rompendo agora o dia. 

Uma brisa sopra branda. 

Já há muito a cotovia, 

em voos de rebeldia, 

p’los ares lavados anda. 



A Leste, o céu ruboriza. 

É o sol, que sonolento, 

devagarinho mal pisa, 

em caminhada precisa, 

o aclive do firmamento. 



Soam passos bem ritmados. 

É um jumento novinho 

de passos alvoroçados 

como se fossem bailados 

na quietude do caminho. 



Atrás dele, vem ligeira 

uma moça camponesa, 

rosa ainda na roseira, 

olhos negros, tez trigueira, 

hino silvestre à Beleza. 



Mais além, a passarada 

descuidada já chilreia, 

ensaiando a revoada, 

na alegria deslumbrada 

que, terno, o sol encandeia. 



Ai, que linda esta aguarela 

que tantos recusam ver! 

Quando a vida se revela 

e ninguém quer dar por ela, 

que sentido tem viver? 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 15 de Março de 2017.

quinta-feira, 2 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O vazio



(QUE VIVA O CORDEL!)






Se eu soubesse escrever um poema,

um poema de amor e louvor,

cantaria a beleza suprema

deste sol ao nascer e ao sol-pôr.



Cantaria o vermelho da aurora,

que de enleios o céu ruboriza,

e o sangrar do sol-pôr que precisa

o negrume que já não demora.



Cantaria depois as estrelas

que pontilham o longe infinito

neste sonho infantil de colhê-lhas

na pureza sagrada de um rito.



Cantaria noite alta o luar

num absurdo e falaz fingimento

de esperar que virias sarar

as feridas do meu sofrimento.



Mas eu sei que não vens nunca mais.

Se foi Deus que te trouxe e levou,

de que servem agora os sinais

no vazio de nós que restou?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Março de 2017.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * A praga



(QUE VIVA O CORDEL!)






Um dia, p’la Primavera,

na festa de todos nós,

o povo soube quem era

e de novo teve voz.



Gritou a sua razão

há tanto tempo oprimida!

Não mais havia a prisão

p’ra quem reclamava a vida.



Declamaram-se os poemas

p’la tirania banidos…

E quebraram-se as algemas

dos caminhos proibidos…



Houve abraços e beijinhos

e também amor jurado

de quem, por outros caminhos,

andara a passo trocado.



Chegara a fraternidade

aos desavindos que houvera.

Chegara a claridade

vestida de Primavera.



Foi tudo assim tão bonito,

até à praga fatal:

isto assim é tão bonito

que só pode acabar mal…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 27 de Fevereiro de 2017.




sábado, 25 de fevereiro de 2017

11 -- O MEU RIMANCEIRO * Evidência

(QUE VIVA O CORDEL!)






Por favor, não mintam mais! 

Com os anos aprendemos 

que são falsos os sinais 

que emitem e recebemos. 



No paul que nos atola, 

que valha a sabedoria: 

quando grande é a esmola, 

sempre o pobre desconfia. 



E se há muito isto aprendemos, 

nos falta agora aceitar 

que quando mal escolhemos 

não há de que reclamar. 



Quem sabe o que lhe convém, 

não poderá ignorar 

que não se pede a alguém 

o que não tem para dar. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 25 de Fevereiro de 2017 


domingo, 12 de fevereiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O decreto



(QUE VIVA O CORDEL!)







Desde o princípio, este drama.

E nadinha se alterou:

se quem não chora não mama,

quem não chora já mamou?



Vem do berço a velha manha,

mais ainda enraizada

porque mais raízes ganha

com tanta e tanta mamada.



Que importa haver quem reclame?

Há até quem acredite

que decretado o desmame

se acaba tanto apetite.



O problema é o decreto.

Que valente agora vem

dizer ao povo eu decreto

que não mama mais ninguém?



Seria o bom e o bonito

ver tanto bebé-chorão

reclamando num só grito

por mama ou por biberão.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 12 de Fevereiro de 2017.

domingo, 22 de janeiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Sonho de Primavera!


(QUE VIVA O CORDEL!)








Quando tu acreditaste

que chegara a Primavera,

o medo gritou-te: espera!

e tu, confuso, esperaste.



Tiveste medo do medo,

do medo que te encarcera.

Foi porque tiveste medo

que perdeste a Primavera.



Depois, chegou o Verão,

muito quente, muito quente!

E tu, nessa lassidão,

dormias indiferente.



Quando acordaste, era Outono,

o tempo das azeitonas.

E tu, ainda com sono,

à modorra te abandonas!



Só quando em redor olhaste,

viste a paisagem mudada:

nua estava a débil haste,

no abandono desfolhada.



Ficaste sem entender

o que tinha acontecido,

como se pudesse haver

no não-ser algum sentido.



Hoje, nas águas paradas

do paul tentas sonhar

caravelas encantadas

sedentas por navegar.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Janeiro de 2017.




sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * A balança


(QUE VIVA O CORDEL!)







Põe os pratos na balança!

Pesa-me um quilo de pão

e dez gramas de esperança

para eu comer ao serão.



Põe os pratos na balança

e deixa a dança parar.

Se não parares a dança,

no peso vais me enganar.



Sei que de pobre não passo,

quer tu me enganes ou não,

enquanto tolhe o meu braço

a insana resignação.



Talvez este tempo mude,

porque a inércia não existe,

e eu podendo o que não pude

faça o que tu nunca viste.



E quanto hoje tão mal aprontas,

numa gula sem parança,

serão parcelas das contas

a pesar noutra balança.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo. 21 de Janeiro de 2017.




11 - O MEU RIMANCEIRO * O jumento



(QUE VIVA O CORDEL!)





Tão manso, sobe a ladeira! 

Manso, manso, mansidão! 

Vai à feira, vem da feira, 

leva ou traz a servidão. 



Sobre o dorso, pesa a albarda. 

Sobre a albarda vai o dono. 

Só a noite alta lhe guarda 

algumas horas de sono. 




No estábulo solitário 

espera a magra ração: 

é o mísero salário 

de quem vive em servidão. 




Cale-se a palavra gasta 

incensando a compaixão! 

De tantas loas já basta! 

É tempo de dizer não! 




E que venha o que vier 

na mudança anunciada! 

Traga a vida o que trouxer, 

sempre será outra estrada. 






José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 20 de Janeiro de 2017.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

11 - O MEU RIMANCEIRO * A nova banda


(QUE VIVA O CORDEL!)






Não são meus estes caminhos

nem é meu este arvoredo

onde as aves fazem ninhos

e me cantam em segredo

hinos de amor e verdade

com asas de liberdade.




Estas terras não são minhas,

só são minhas as canseiras

de sol a sol nestas vinhas

onde colho nas videiras

promessas de olor e mosto

no calor do mês de Agosto.




Não são meus estes trigais

nem as papoilas sangrando.

São meus apenas meus ais

deste infortúnio em que eu ando

de um amanhã esperando

que virá mas não sei quando.




Só é meu este cansaço

que é noite quando adormeço.

Nem à força do meu braço,

sendo minha, faço o preço.

Este mundo é uma banda:

toca o que o regente manda!




Ouço falar de direitos,

de justeza ouço falar.

Serão caminhos estreitos

onde eu não posso passar,

porque o mundo é uma banda:

toca o que o regente manda.




Talvez de regente eu mude,

não me serve o que ele manda.

Só um tolo é que se ilude

rodando neste ciranda.

Se tanto eu já soube e pude,

vou criar a minha banda.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Novembro de 2016.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

11 - O MEU RIMANCEIRO * Isto é uma paródia!...


(QUE VIVA O CORDEL!)






Consigo trazem sempre a solução


Os donos da verdade são assim


Ficam vaidosos se dizemos sim


Ficam danados se dizemos não






Os donos da verdade não consentem


Sequer que se lhes peça um fundamento


Sequer o mais vulgar aclaramento


Protestam e trejuram que não mentem






E passam a olhar-nos de través


Como se fosse crime perguntar


Como se fosse crime reclamar


Sabermos em que chão pomos os pés






Eu quero que a verdade seja o pão


Pousado sobre a mesa e repartido


E dele comerei o meu quinhão


Que por direito é meu e me é devido.






Que sempre o que é verdade se revele


Sem artifícios e nenhum ornato


Se me dão lebre quero ver-lhe a pele


Gato por lebre nunca no meu prato








José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 19 de Outubro de 2016.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

11 - O MEU RIMANCEIRO * Quem?


(QUE VIVA O CORDEL!)





Quem disse e já não diz

que os nossos pés alados

são na terra a raiz

de astros incendiados?



Quem quis e já não quer

ser verbo que futura,

enquanto o sangue der

cor viva ao que procura?



Quem disse e nega agora

ter dito e defendido

que o drama que nos chora

não mais seria havido?



A quem tanto exaspera

o sol da Primavera?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Fevereiro de 1999.
Alentejo, 22 de Setembro de 2016.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

11 - O MEU RIMANCEIRO * A maçada


(QUE VIVA O CORDEL!)







Dos donos de tudo

aos donos de nada,

o perfil estudo

da carnavalada



É tempo de Entrudo.

Viva a palhaçada!

Só quem é sisudo

não acha piada.



Por que estou eu mudo

de guarda fechada?

Por que estou de escudo

temendo a estocada?



Não brinco ao Entrudo?

Não acho piada?

Ser assim sisudo

é uma maçada.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 23 de Dezembro de 1996.
Alentejo, 12 de Agosto de 2015.

sábado, 9 de maio de 2015

11 - O MEU RIMANCEIRO * Romagem

(QUE VIVA O CORDEL!)








De tribo em tribo, vou, humilde peregrino.



E tudo em derredor são sombras e armadilhas.


Um bobo impertinente exibe o desatino,

a turba exulta e faz do reles maravilhas...



Medíocre insecto arenga, em sórdido arreganho.

Casaca a condizer, as asas coloridas.

Asneiras que lhe inveja o néscio em seu tamanho.

E aqui não há ninguém que venda insecticidas!...



Humilde sou e humilde eu quero assim manter-me.

Traído o seu intento, o verbo foi em vão.

Não é inteligente equiparar-me ao verme.

Humilde, sim, serei, mas sem humilhação.



Paguei o preço até ao último centavo.

Ingénuo, e em dor, do fel senti o amargo travo...







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Junho de 1997.

11 - O MEU RIMANCEIRO * Nihil sine causa


(QUE VIVA O CORDEL!)





A feira dos medíocres continua!

Senhores, quem dá mais? Quem arremata?

Sujeita à turba e à provação da rua,

a chusma de alimárias à arreata!



Os guizos, nos molins, são uma festa!

Em algazarra, corre o rapazio!

Morenos pelo sol que em fogo cresta,

ciganos e malteses de ar sombrio...



Barracas de andrajoso amor comprado,

um vómito de nojo purulento!

E, ao sol deste martírio, o descampado

inteiriçado ao frio do relento...



Lá longe, na cidade bem guardada,

a corte, em seus festins, não dá por nada...



*
(Nihil sine causa, nada existe sem uma causa, Cícero)
*
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 26 de Janeiro de 2000.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

11 - O MEU RIMANCEIRO * O petulante


(QUE VIVA O CORDEL!)








Do pouco que aprendeu à martelada,

tudo esqueceu. Ficou-lhe a petulância, 

que rega no jardim da ignorância

se está de folga a bênção da chuvada.



Persegue, em vão, as graças requintadas

do estilo polvilhado de elegância.

Vive a vulgaridade da jactância,

ornada, aqui e ali, de calinadas.



A pobre língua infausto fado tem!

É pontapé que ferve, coice em barda!

Quem salva do desterro esta refém?



Surpreso e já irado o povo aguarda

e clama: por aí há ou não quem

lhe ponha nos costados uma albarda?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Setembro de 1958.
Revisto em Alentejo, 17 de Abril de 2015.